Tendo estudado a expansão do Cristianismo
até o século VI, passamos a considerar a história das doutrinas da fé
na antigüidade: capítulos 8´13. Um dos mais sérios problemas
doutrinários que se puseram na Igreja antiga, foi o da conciliação da
unidade de Deus (firmemente professada pelo Antigo Testamento) com a
Trindade de Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo, tais como nos foram
revelados pelo Novo Testamento). A inteligência dos cristãos se pôs à
procura de uma fórmula satisfatória, que, após duras controvérsias, foi
definida pelos Concílios de Nicéia I (325) e Constantinopla I (381). É a
história dessa longa reflexão que vamos estudar.
O monarquianismo
Nos séculos II/III alguns escritores
cristãos julgavam que o Verbo (Lógos) ou o Filho de Deus só se tornara
pessoa no tempo; em vista da criação do mundo, o Pai teria gerado ou
emitido o Lógos, de modo a constituir a segunda Pessoa da SS. Trindade. ´
Esta concepção negava a eternidade do Filho de Deus e o subordinava ao
Pai. Todavia os defensores dessa teoria afirmavam a Divindade do Filho,
de modo que não suscitavam grave polêmica na sua época.
Podemos dizer que a primeira tentativa
sistemática de conciliar unidade e pluralidade em Deus professava a
unidade com detrimento da pluralidade. Chamou´se, por isto,
monarquianismo, expressão derivada da exclamação: "Monarchiam tenemus. ´
Conservamos a monarquia" ( Tertuliano, Adversus Praxeam 3). Apresentava
duas fórmulas:
O monarquianismo dinamista
O monarquianismo dinamista professou que
Jesus era mero homem, o qual no momento do Batismo terá sido revestido
de poder (dynamis) divino; foi, portanto, um homem adotado por Deus como
Filho, com intensidade especial. O fundador desta corrente foi Teódoto
de Bizâncio, cristão de notável cultura grega, que o Papa São Vítor
excomungou (190). Os seus discípulos, Asclepiódoto e Teódoto o jovem,
quiseram organizar uma comunidade própria, para qual nomearam um Bispo
chamado Natal; este foi o primeiro antipapa, o qual, arrependido,
tornou´se ao seio da Igreja. Tal corrente teve novo representante na
pessoa de Paulo de Samosata, homem ambicioso. Este via em Jesus um mero
homem no qual terá habitado "como num templo" o Logos ou a Sabedoria de
Deus, que em escala menor habitava em Moisés e nos profetas. Um concílio
regional reunido em Antioquia excomungou Paulo (268); mas os numerosos
adeptos deste continuaram a professar a sua doutrina, de modo que o
Concílio ecumênico de Nicéia teve que se ocupar com a escola dos
paulanos (325).
É de notar que o mencionado Concílio de
Antioquia em 268 rejeitou a afirmação de que o Filho ou Logos é da mesma
substância ou natureza (homoousios) que o Pai. Ora precisamente esta
expressão foi consagrada pelo Concílio de Nicéia I (325) como fórmula de
fé. Para entender os fatos, devemos observar que Paulo de Samosata
usava a palavra homoousios para significar que o Logos ou o Filho era
uma só pessoa com o Pai.
Monarquianismo modalista
Esta corrente ensinava que o Filho era o
próprio Pai ou uma modalidade pela qual o Pai se manifestava; por
conseguinte, o Pai terá padecido na cruz (donde o nome patri, de pater,
pai; passianismo, de passus, padecido).Tal doutrina, devida a Noeto de
Esmirna, foi levada para Roma e Cartago (África), dando origem ao
partido patripassiano, que muito agitou a comunidade de Roma.
O Papa Zeferino (198´217), numa
declaração oficial, afirmou a Divindade de Cristo e a unidade de
essência em Deus, sem, porém, negar, como faziam os patripassianos, a
diversidade de pessoas do Pai e do Filho. O modalismo foi estendido por
Sabélio, em Roma, ao Espírito Santo. Este pregador professava três
revelações de Deus: uma, como Pai, na criação e na legislação do Antigo
Testamento; outra, como Filho, na Redenção; e a terceira, como Espírito
Santo, na obra de santificação dos homens. Designava cada uma dessas
manifestações como prósopon, palavra grega que significava
originariamente "máscara ou papel de ator de teatro", visto que
posteriormente prósopon significou também pessoa, a doutrina de Sabélio
tornou´se ambígua e conquistou muitos adeptos, que de boa fé lhe
aderiram sem querer negar a trindade de Pessoas em Deus.
Como se vê, o grande problema consistia
em afirmar a Trindade de Pessoas em Deus sem cair no triteísmo ou sem
professar três deuses. A controvérsia havia de arder por todo o século
IV, envolvendo todas as camadas da população, desde o Imperador até os
mais simples fiéis; a ingerência do poder imperial, que desde 313 era
simpático ao Cristianismo, contribuiu para tornar difíceis e penosas
essas discussões teológicas; elas assumiam, não raro, um caráter direta
ou indiretamente político.
A problemática suscitou na Igreja os
esforços de numerosos santos e doutores, que, com seus talentos
intelectuais e sua vida, colaboraram decisivamente para a reta
formulação da fé cristã. O período áureo da literatura cristã está
precisamente ligado às disputas teológicas.
Estudemos agora as controvérsias do século IV.
Arianismo e semi-arianismo
Rejeitando o monarquianismo dinamista e
modalista, a Igreja afirmava sua fé em Cristo, Pessoa Divina e distinta
do Pai. Todavia não estava explicada a maneira como se relacionam entre
si o Filho e o Pai.
No século IV muitos admitiram a
Divindade do Filho, subordinando-o, porém, ao Pai; donde resultou a tese
do subordinacionismo, que teve em Ário de Alexandria o seu principal
arauto.
Arianismo
O presbítero Ário de Alexandria foi mais
longe do que os pensadores anteriores: afirmava que o Filho é criatura
do Pai, a primeira e a mais digna de todas, destinada a ser instrumentos
para a criação de outros seres. Em virtude da sua perfeição, o Filho ou
Logos poderia ser chamado "Filho de Deus", como reza a tradição.
O Bispo Alexandre de Alexandria reuniu
um Sínodo local, contando cerca de cem Bispos, que condenaram a doutrina
de Ário e dos seus seguidores em 318. A decisão foi comunicada a outros
Bispos, inclusive ao Papa São Silvestre. Ário, porém, conseguiu novos
defensores para a sua causa o que tornou mais árdua a controvérsia.
Diante dos fatos, o imperador Constantino, que em 324 vencera Licínio,
tornando-se o unico senhor do Império, resolveu intervir: tinha como
assessor teológico o santo Bispo Ósio de Córdoba (Espanha), que
Constantino enviou a Alexandria para aproximar Ário do Bispo Alexandre; a
missão, porém, fracassou. Então Constantino resolveu convocar um
Concílio ecumênico para Nicéia na Ásia Menor em 325, ao qual
compareceram cerca de 300 Bispos, provenientes de todas as partes do
mundo cristão; o Papa Silvestre, de idade avançada, mandou dois
presbíteros seus representantes.
As discussões foram longas e agitadas.
Por fim, os padres conciliares redigiram o Símbolo de Fé de Nicéia, que
afirmava ser o Filho ?Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus
verdadeiro, gerado não feito, consubstancial (homoousios) ao Pai; por
Ele foram feitas todas as coisas?.
A palavra homoousios torna-se, de então
por diante, a senha da reta doutrina. Significava que o Filho é da mesma
natureza (= Divindade) que o Pai; não saiu do nada como as criaturas,
mas desde toda a eternidade foi gerado sem dividir a natureza divina.
O Imperador Constantino tomou aos seus
cuidados a defesa do Concílio ecumênico de Nicéia. Exilou Ário e quatro
Bispos que não queriam aceitar, na íntegra, definição do Concílio.
Condenou às chamas os escritos de Ário; seria punido quem os guardasse
às ocultas.
As divisões do Arianismo
Infelizmente, porém, as controvérsias
não terminaram. O termo homoousios parecia a alguns suspeito de
sabelianismo ou de modalismo. Por isto alguns Bispos e monges puseram-se
a combater o Concílio, apoiados pelos Imperadores Constâncio (?337) e
Valente (?364-78), sucessores de Constantino.
Do lado da ortodoxia, destacam-se: Santo
Atanásio, Bispo de Alexandria desde 328, que sofreu vários exílios; e o
Papa Libério, que em 355 foi deportado pelo Imperador Constâncio;
alguns historiadores antigos dizem que Libério conseguiu voltar à sua
sede de Roma, subscrevendo uma fórmula de fé antinicena e deixando de
apoiar Santo Atanásio; se isto é verdade, deve-se à fraqueza humana, mas
não se tratava de definição solene e sim de um pronunciamento pessoal
que o Papa fazia.
De resto, sabe-se que Libério, uma vez
retornado a Roma, combateu eficazmente o arianismo. Os antinicenos, com o
respaldo do Imperador, julgaram-se vencedores, depondo Bispos e
reunindo Concílios regionais. Acontece, porém, que se dividiram: tendo
negado a identidade de substância entre o Pai e o Filho ou afirmaram uns
que o Filho era semelhante (homoiousios) ao Pai, enquanto outros o
tinham como dissemelhante (anhomoios). A controvérsia era alimentada
também pela sutileza do linguajar; palavras próximas umas das outras
tinham significados diferentes: assim homoousios e homoiousios; genetós
(feito) e gennetós (gerado), Nikainon (de Nikaia, sede do Concílio
ortodoxo de 325) e Nikenon (de Nike, sede de um Concílio herético).
Finalmente, após mais de cinqüenta anos
de disputas ardentes, a ortodoxia foi prevalecendo, especialmente por
obra dos três doutores da Capadócia (Ásia Menor): São Basílio de
Cesaréia (? 379), São Gregório de Naziano (? 390) e São Gregório de
Nissa (? 394). Estes elaboraram a fórmula grega: mía ousía kaí treis hypostáseis,
uma essência (ou substância) e três pessoas, fórmula que exprimia
fielmente o pensamento dos padres nicenos e o conteúdo da reta fé: há
uma só Divindade, que se afirma três vezes ou em três Pessoas.
O grande protetor da ortodoxia , no fim
do século IV, foi o Imperador Teodósio (? 379-395), que, pouco depois de
subir ao trono, convidou todos os habitantes do Império a aderir "aquela fé que professam Dâmaso em Roma e Atanásio em Alexandria";
mandou também entregar as igrejas de Constantinopla aos católicos. O
Concílio Ecumênico de Constantinopla I (381) havia de consolidar a
proclamação da reta fé contra o arianismo. Isto, porém, não quer dizer
qual tal heresia se tenha extinto logo; várias tribos germânicas,
entrando dentro das fronteiras do Império, foram evangelizadas por
arianos, de modo que abraçaram o Cristianismo ariano sob forma de
religião nacional. Resta agora estudar a discussão relativa ao Espírito
Santo.
O Macedonianismo
O Espírito Santo, embora atestado por
numerosos textos bíblicos (como Jo 14.16), foi menos considerado no
decorrer do século IV. É certo, porém, que quem julgava ser o Filho
criatura do Pai tinha o Espírito Santo na conta de criatura do Filho;
seria um dos espíritos servidores (cf. Hb 1,14), diferente dos anjos
apenas por gradação.
Santo Atanásio, ao combater o arianismo,
defendia também a divindade e a consubstancialidade do Espírito Santo.
Por isto, um sínodo de Alexandria em 362 reconheceu a Divindade do
Espírito Santo. Isto, porém, não bastou para dissipar os erros:
Macedôneo, Bispo ariano de Constantinopla deposto em 360, era ferrenho
adversário da Divindade do Espírito, reunindo, em torno de si bom número
de discípulos, que se chamavam macedonianos ou pneumatômacos (pneuma =
espírito; máchomai = combater).
Vários Sínodos rejeitaram a doutrina de
Macedônio; o mesmo foi feito pelos padres capadócios. Mas o
pronunciamento definitivo se deve ao Concílio de Constantinopla I
realizado em 381: 150 padres ortodoxos, depois do afastamento de 36
macedonianos, condenaram o macedonianismo e, para explicitar claramente a
fé ortodoxa, retomaram o artigo 32 do Símbolo de fé niceno, que rezava
apenas: "Cremos no Espírito Santo"; foram-lhe acrescentadas as palavras: "Senhor
e Fonte de Vida, que procede do Pai (cf. Jo 15,26), adorado e
glorificado juntamente com o Pai e o Filho, e falou pelos Profetas". Assim teve origem o Símbolo de fé niceno-constantinopolitano, que refuta tanto a heresia ariana quanto a macedônia.
Restava, porém, dirimir ainda uma
dúvida: se o Espírito procede do Pai, como se relaciona com o Filho? A
resposta foi diversa no Oriente e no Ocidente; todavia a diversidade
consiste mais na formulação do que na própria doutrina. Os gregos, desde
o século IV afirmam que o Espírito procede do Pai através do Filho, ao
passo que os latinos ensinam que procede do Pai e do Filho (Filioque).
Na Espanha o Filioque foi inserido no Credo niceno-constantinopolitano
em 589 e oficialmente recitado, passando depois para outras regiões de
língua latina. Os gregos se recusam a aceitar tal inserção, que se
tornou pomo de discórdias nos séculos IX-XI.
Atualmente as dificuldades vão sendo superadas, pois em última instância se trata mais de palavras do que de conteúdo.
Fonte:www.veritatis.com.br
Fonte:www.veritatis.com.br

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