A Santíssima Virgem, no primeiro
instante de sua existência, foi enriquecida por Deus com uma imensa
plenitude de graça, superior à de todos os Anjos e Santos reunidos.
Maria
- escreve o Côn. Campana - foi concebida toda brilhante de santidade e
de inocência. A saudação que Lhe fez mais tarde o Arcanjo Gabriel: Ave
gratiae plena, poder-lhe-ia ter sido dirigida logo no primeira instante
em que sua alma, saindo das mãos de Deus, foi unida a seu corpo. Desde
então, a Bem-aventurada Virgem sobrepujou a todos os Santos,
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| "Nosso Senhora do Coromoto" Seminário |
| dos Arautos do Evangelho, São Paulo, |
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mesmo aqueles que fizeram nas vias da justiça as mais ousadas e admiráveis ascensões.
Passemos, pois, a considerar essa plenitude de graça na Santíssima Virgem.
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A graça santificante
Antes de tudo, ouçamos uma breve explicação sobre a graça santificante:
Esta
expressão plenitude de graça, refere-se, segundo o sentido habitual da
Escritura, à graça propriamente dita, que se distingue realmente da
natureza humana e da angélica, como um dom de Deus inteiramente
gratuito, que excede as forças naturais e as exigências de toda natureza
criada e mesmo criável. A graça habitual ou santificante nos faz
participar da própria natureza divina ou de sua vida íntima, segundo as
palavras de São Paulo (II Ped. I, 4): "(Jesus Cristo) nos comunicou mui
grandes e preciosas graças, a fim de que por elas nos tornássemos
consortes da natureza divina."
Pela graça nos tornamos filhos
adotivos de Deus, seus herdeiros e co-herdeiros do Cristo (Rom. VIII,
17); por ela somos nascidos de Deus. Ela nos torna aptos a receber a
vida eterna como uma herança e como a recompensa dos méritos, dos quais
ela é o princípio. Ela é mesmo o germe da vida eterna, sêmen gloriae diz
a Tradição, enquanto ela nos dispõe, desde já, a ver a Deus como Ele se
vê a si mesmo e a amá-lo como Ele se ama.
Esta graça habitual ou
santificante é recebida na própria essência de nossa alma como um
enxerto sobrenatural que sobreleva sua vitalidade, a deifica. Desta
graça derivam para nossas faculdades as virtudes infusas, teologais e
morais, e também os sete dons do Espírito Santo; quer dizer, tudo o que
constitui nosso organismo sobrenatural. Segue-se daí que pela graça
habitual a Santíssima Trindade habita em nós como num templo onde Ela é
conhecida e amada.
A graça à qual se refere essas palavras do
Anjo: Ave, gratia plena, é, portanto, superior às forças naturais e às
exigências de toda natureza criada e criável. Sendo uma participação da
natureza divina ou da vida íntima de Deus, ela nos faz entrar,
propriamente, no reino de Deus, imensamente acima dos diversos reinos da
natureza, que se podem chamar reinos mineral, vegetal, animal, humano e
mesmo angélico (...)
O menor grau de graça santificante contido
na alma de uma criancinha batizada, vale mais que o bem natural de todo o
universo, mais que todas as naturezas criadas, inclusive as angélicas.
Existe aí uma participação da vida íntima de Deus que é superior a todos
os milagres e outros sinais exteriores da revelação divina, ou da
santidade dos servos de Deus (...)
É desta graça, germe da glória, que se trata na palavra dirigida pelo Anjo a Maria: Deus te salve, cheia de graça!
E
o Anjo devia notar que, embora tivesse ele a visão beatífica, aquela
Santa Virgem possuía um grau de graça santificante e de caridade
superior ao dele: o grau que convinha para que Ela se tornasse, nesse
mesmo instante, a digna Mãe de Deus. (...)
Três graus distintos de plenitude de graça
Cumpre
assinalar, tratando-se da plenitude de graça em geral, que esta existe
em três graus muito diferentes, em Cristo, em Maria e nos Santos. São
Tomás o explica em diversas passagens.
- Plenitude de graça própria a Jesus Cristo
Existe,
primeiramente, a plenitude absoluta de graça que é própria ao Cristo,
Salvador da humanidade. Segundo a potência ordinária de Deus, não
poderia haver graça mais elevada e mais extensa que a sua. É a fonte
eminente e inesgotável de todas as graças que recebeu e receberá a
humanidade inteira, depois da queda de Adão (...)
- Plenitude de graça de Maria
Em segundo lugar, existe a plenitude dita de superabundância, que é o privilégio especial de Maria. (...)
- Plenitude de graça dos Santos
E
há, por fim, a plenitude de suficiência que é comum a todos os Santos, e
que os torna capazes de cumprir os atos meritórios (...) e alcançar a
salvação eterna.
Entremos agora a tratar da graça santificante em Maria - em seu início, em seu progresso e em seu termo.
A graça inicial de Nossa Senhora
A
Santíssima Virgem foi ornada pela graça santificante desde o primeiro
instante de sua conceição. Esta é a sentença completamente certa em
teologia.
Se Maria foi preservada de incorrer na culpa original,
se foi, desde o primeiro instante de sua existência terrena, amiga de
Deus, isto se deu por força da graça santificante, recebida nesse
momento de Deus. Dizer-se, portanto, que Maria não esteve jamais, nem
por um instante, sujeita à culpa, que é a morte da alma, equivale a
reconhecer que sua alma bendita esteve sempre adornada pela graça, e,
por isso mesmo, foi sempre objeto das complacências divinas.
- De que modo Maria foi santificada
Admitem
comumente os teólogos que Maria foi santificada de modo consciente,
desde o primeiro instante de sua vida terrena. É certo que já aí esteve
Ela o pleno e perfeito uso da razão. Na verdade, argumenta Suárez, o uso
da razão, mesmo antes do nascimento, foi concedido a São João Batista
em sua santificação, como consta em São Lucas (I, 42).
Ora, se o uso da razão foi concedido a esse grande Santo, tanto mais terá sido concedido a Maria. Pois acrescenta o
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| Nossa Senhora do Carmo |
doutor exímio, todo privilégio de graça que haja sido concedido a qualquer criatura, não é verossímil haja sido negado a Maria.
Dotada
de tal faculdade, Ela, desde o primeiro instante de sua existência,
teve logo o conhecimento de Deus e, portanto, com um ato de seu livre
arbítrio, se lançou com todo o afeto de seu coração para Ele, num
movimento de perfeitíssimo amor. E deste modo se dispôs, com seus atos
pessoais, para sua santificação.
Compreenda-se bem, contudo, que
esta descrição não quer dizer que Maria tivesse amado primeiro a Deus,
para assim, merecer sua santificação. Todos esses seus atos iniciais só
podiam alcançar e agradar a Deus, porque já eram movidos e inspirados
pela graça divina: Deus A amou primeiro, e o que havia de bom n'Ela e o
que Ela fazia de bem, já era efeito desse amor de Deus por Ela.
- Em que grau foi santificada
A
graça santificante, em sua intensidade, por infindáveis graus, pode ser
mais ou menos perfeita. Pois bem, em que grau de intensidade a recebeu
Maria no primeiro instante de sua existência?
Se interrogarmos os
Mariólogos, responder-nos-ão em coro que é muito difícil formar uma
idéia a respeito da graça concedida à Virgem Santíssima naquele primeiro
instante. Não foi, certamente, uma graça comum; deve ter sido,
portanto, uma graça especialíssima.
a) Os
Teólogos declaram, como o Doutor Angélico, que a graça concedida a Maria
em sua primeira santificação, ou sejam a sua graça inicial, superou de
longe a medida da graça concedida ao maior dos Santos entre os homens, e
ao mais sublime dos Anjos, no primeiro instante da santificação dos
mesmos.
O Pe. Terrien assim exprime esta opinião: "Se me
interrogardes qual foi em Maria a perfeição da graça, quando Ela saiu
radiosa e pura das mãos, digamos antes, do coração de Deus, eis de
início uma resposta incontestável: jamais criatura, em sua primeira
santificação, recebeu uma graça semelhante. Recordemos o grande
princípio: Todo dom de graça concedido pela liberalidade divina a
qualquer criatura que seja, Maria o recebeu em medida igual ou superior.
Portanto, dado que a perfeição da graça inicial é manifestamente um
benefício sobrenatural de Deus, ela foi, em grau supereminente, o
privilégio de Maria.
Ademais, a intensidade da graça se revela
por seus efeitos. Ora, um dos efeitos desta primeira graça em Maria foi
de preservá-La para sempre de toda inclinação ao mal, e de confirmá-La
absoluta e plenamente no bem. Portanto, também esse título Ela sobrepuja
a primeira graça dos homens e dos Anjos: pois nem em uns, nem em
outros, a santificação inicial teve, no mesmo grau, esse duplo efeito.
Ninguém, portanto, teve, em sua primeira santificação, tanta graça quanto teve a Virgem Santíssima.
b)
Mas isto é muito pouco para Maria. De sorte que os doutores marianos,
tendo à frente Suárez, avançam mais adiante seu confronto e nos dizem
que a graça concedida à Virgem Santíssima em sua primeira santificação,
ou seja, sua graça inicial, superou em intensidade a graça do mais santo
dos Anjos e dos homens quando consumada, ao fim de sua provação.
c)
Mas os Mariólogos ainda não estão contentes com isso. Vão mais adiante e
nos dizem com Suárez, que a Virgem Santíssima provavelmente recebeu, no
primeiro instante de sua existência, mais graça que todos os Anjos e
Santos reunidos. A graça inicial de Maria teria, portanto, superado a
graça inicial de todos os Anjos e de todos os Santos, somados. Com
efeito, a graça como ensina Suárez, corresponde sempre ao amor de Deus
por nós e está em proporção com o mesmo. Ora, a Virgem Santíssima, desde
o primeiro instante de sua existência terrena, foi mais amada por Deus
do que todos os outros, Anjos e homens, tomados coletivamente. Portanto,
também a graça que Ela recebeu devia superar a concedida a todos os
Anjos e Santos reunidos 9cfr. Suárez, De Incar., disp. 4, sect. 1)
d)
Mas, uma vez admitido esse princípio, que é verdadeiríssimo e não pode
se posto em dúvida, alguns Mariólogos vão ainda mais longe e concluem,
sem mais, que a graça inicial de Maria superou a graça final (ou
consumada) de todos os Anjos e de todos os Santos, coletivamente
tomados.
E com efeito: qual é a medida que o Senhor usa ao
distribuir suas graças? Já o dissemos, mas convém repeti-lo: é a união
mais ou menos estreita e o amor mais ou menos intenso que Ele tem para
com as criaturas. Ora, que união mais estreita e mais íntima se pode
conceber do que a que existiu entre Deus e Maria, sua Mãe? Que amor
maior, mais ardente? Não é, realmente, verdade que, desde o primeiro
instante de sua conceição, Maria foi amada por Deus como sua futura Mãe
e, portanto, mais que todos os outros Santos e todos os Anjos tomados
juntos, mesmo considerados no auge de sua perfeição? Isto posto, como
negar que Ela, desde o primeiro instante, tenha recebido uma graça mais
copiosa e mais intensa do que todos os outros, tomados coletivamente, ao
chegarem ao último estágio de sua santificação? Portanto, Maria começa
onde os outros acabam. Do ponto aonde os outros chegam na via da
perfeição, Ela, com um magnânimo impulso, começa a percorrer sozinha uma
estrada quase infinita.
Oh! Sim! Reunamos, ao menos com
pensamento, os méritos de todos os Anjos e Santos, em todos os séculos, a
obediência dos Patriarcas, a fidelidade dos Profetas, o zelo ardente
dos Apóstolos, a invicta constância dos Mártires, a fé viva dos
confessores, os ardentes suspiros das viúvas, a inviolada pureza das
Virgens, todos os exemplos de virtude com que a Terra foi edificada e o
Céu rejubilado; imaginemos, se possível, todas as torrentes de graça e
benção que correram
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| Igreja de Santa Maria, Kitchener, Canadá |
| Gustavo Kralj |
através dos séculos, descendo das mãos de Deus e ainda não teremos coisa
igual ao oceano de graças que Deus infundiu na Virgem Santíssima no
primeiro instante de sua Conceição Imaculada. Desde aquele instante, Ela
foi mais pura, diante de Deus, mais santa e mais aceita a seus olhos,
mais cara a seu divino coração, do que todas as outras criaturas juntas.
Na verdade: "Diligit Dominus portas Sion super omnia tabernacula Jacob"
- O Senhor ama as portas de Sião mais do que todas as tendas de Jacob.
Realmente: "Fundamenta ejus in montibus sanctis" (Sl LXXXVI, 1). Seus
fundamentos forram postos sobre os montes de Sião.
A graça de
Maria, comparada à dos Santos, é como um sol comparado a um raio, como
um oceano comparado a um rio, como um rio comparado a uma gota.
A progressividade da graça em Nossa Senhora
Por
maior e intensa que tenha sido a graça concedida a Maria no primeiro
instante de sua existência terrena, ou seja, em sua primeira
santificação, ainda estava bem longe de alcançar o máximo grau de
intensidade e de extensão possível. Podia, portanto, como a de todos os
justos, crescer cada dia mais em grau e intensidade, até o termo de sua
existência terrena.
Com efeito, o Concílio de Trento ensina (cân.
24, sess.VI) que todas as almas, enquanto estiverem no estado de
viandantes (isto é, até que tenham chegado à beatitude eterna) podem
sempre aumentar com as boas obras o tesouro de sua graça. À maneira de
sóis, irradiam uma luz cada vez mais intensa à medida que avançam em seu
curso.
Ora, Maria Santíssima, durante toda a sua vida, esteve no
estado de simples viandante, ou seja, não gozava da visão beatífica, ao
menos de modo permanente. Pode sempre, portanto, avançar mais para o
termo último da viagem que é, justamente, a celeste bem-aventurança.
A
este propósito, Nicolas aduz oportuno esclarecimento: "A Imaculada
Virgem não cessou de receber novas graças, de crescer em perfeição e
santidade, não obstante ser sempre cheia de graça. Como pode ser isto?
Só existe uma espécie de plenitude em um vaso material; de sorte que,
estando cheio, nada mais pode receber. Porém, uma alma cheia de graça
pode receber sempre novas plenitudes, porque recebe ao mesmo tempo novas
capacidades. A graça divina engrandece a alma enchendo-a, e a enche
engrandecendo-a. E todo cristão faz ou pode fazer, sob tal aspecto, a
experiência de tão maravilhosa operação da graça, cuja perfeição se
manifesta em Maria."
Mas, de quantos modos podia verificar-se em Nossa Senhora esse contínuo crescimento da graça?
De
três modos, respondem os teólogos, a saber: ex opere operantis (em
virtude da atividade do agente); ex opere operato (em virtude do próprio
ato realizado e não em virtude da atividade do agente); e pela oração
de súplica (via de impetração gratuita).