quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A Quaresma de São Miguel e a promessa de Cristo a respeito dos Anjos

O céu aberto e o papel dos Santos Anjos na salvação

Nesta Quaresma de São Miguel, queremos refletir sobre a promessa que Cristo Jesus fez aos seus discípulos:

“Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto e os Anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem!” (Jo 1, 50-51).

Ao ouvirem estas palavras, os discípulos de Jesus pensavam certamente na escada de Jacó. Este teve um sonho no qual “via uma escada, que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o céu; e os santos anjos de Deus subiam e desciam pela escada. E no alto estava o Senhor” (Gn 28,12). No entanto, nas palavras da promessa de Jesus, podemos notar uma mudança significativa: os Anjos já não são apenas os mediadores entre Deus no alto e os homens embaixo, mas eles sobem e descem sobre o Filho do homem.


Qual é o significado disso?
O Filho de Deus desceu à terra para se tornar Filho do homem; ele veio para nos salvar trazendo consigo os Santos Anjos para o auxiliarem na sua missão de salvador da humanidade. Por isso, diz o Catecismo da Igreja Católica (n.º 331):

“Cristo é o centro do mundo dos anjos. Estes pertencem-lhe… são dele… porque Ele os fez mensageiros do seu plano salvador”.

O centro do mundo angélico já não é o trono de Deus sobre os céus, mas Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem. E assim, os Anjos sobem e descem sobre o Filho do homem. O Catecismo afirma ainda (n.º 333):

“Desde a Encarnação até a Ascensão, a vida do Verbo Encarnado é cercada da adoração e do serviço dos anjos.”

Os Anjos na vida de Jesus
Será que Jesus precisava do serviço e do auxílio dos Santos Anjos? O mistério de Jesus Cristo consiste precisamente nisto: ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Como Deus, os anjos o adoram. Como homem, os Anjos o servem e auxiliam. Com efeito, enquanto homem, ele precisava também do serviço dos Anjos.Um Anjo avisou São José do iminente perigo para a vida do menino Jesus (cf. Mt 2,13).
Os Anjos vieram para servir Jesus no deserto e durante toda a sua vida (cf. Mt 4,11).
Um Anjo fortaleceu-o na sua agonia no Monte das Oliveiras (cf. Lc 22,43).

De fato, em Jesus como homem havia uma íntima relação com os Anjos. Estes o assistiram e ajudaram-no a cumprir a vontade do Pai e realizar a obra da redenção. E disso os próprios discípulos de Jesus se tornaram testemunhas. De fato, junto de Jesus, os seus discípulos viram os “céus abertos” e a poderosa ação dos Anjos de Deus que acompanharam e serviram Cristo na sua missão salvadora e, ao mesmo tempo, foram os primeiros evangelizadores. Eles proclamaram a Boa-Nova do nascimento do Salvador aos pastores (cf. Lc 2,10-14), a notícia da ressurreição às mulheres na manhã da Páscoa (cf. Lc 24,5-7) e a promessa da segunda vinda de Cristo aos discípulos depois da ascensão de Cristo ao céu (cf. At 1,10-11).

Os Anjos na vida da Igreja
Será que Jesus cumpre sua promessa ainda hoje? Onde é que podemos ver o céu aberto e os Santos Anjos descendo e subindo?

Disse o saudoso Papa Bento XVI: “A Eucaristia é o lugar onde se cumpre a promessa de Cristo a Natanael. É na liturgia que podemos ver o céu aberto e os Anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” (cf. Jo 1,51). Pois na Eucaristia Cristo se faz presente em nosso meio. E onde Cristo está presente, aí o céu está aberto e os Anjos sobem e descem.

Por isso, “em sua Liturgia, a Igreja se associa aos anjos para adorar o Deus três vezes Santo” (Catecismo, 335). No início da oração eucarística, o celebrante convida, pois, os fiéis a se unirem de modo particular aos Anjos:

“Concedei-nos também a nós, associar-nos à multidão dos querubins e serafins, cantando a uma só voz: Santo, Santo, Santo…”

Os Anjos na nossa vida
Santo Agostinho pergunta: Como é possível que os Santos Anjos subam e desçam sobre o Filho do homem, se este, depois de ter subido ao céu, está sentado à direita do Pai? Ele então lembra a palavra de Jesus a Paulo: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9,4). E responde: É verdade, Cristo subiu aos céus, mas, ao mesmo tempo, ficou na terra em cada um dos Seus discípulos. Jesus não disse a Saulo: Por que persegues “meus discípulos”, mas sim por que “me” persegues a mim. Pelo batismo, tornamo-nos cristãos, o que quer dizer: Cristo está em nós e nós em Cristo. Este é um dom que nos foi dado no Batismo e, ao mesmo tempo, uma tarefa que perdura por toda a nossa vida: seguir Cristo, tornar-se semelhante a ele.

Portanto, os Anjos não somente servem a Cristo presente na Eucaristia, mas também a Cristo em nós. A sua tarefa é a de nos ajudar no caminho da salvação. Assim, diz o Catecismo (n.º 334):

“Toda a vida da Igreja se beneficia da ajuda misteriosa e poderosa dos anjos.”

Então, é verdade que os Anjos descem e sobem sobre nós, ou melhor, sobre Cristo presente em nós: descem para nos comunicar as palavras, graças e bênçãos de Deus e sobem para elevar a Deus nossos louvores, orações e sacrifícios.
Qual é a missão dos Anjos em relação a nós?

Cristo faz todos os Santos Anjos participarem no seu projeto de salvação:
“Porventura não são todos os Anjos espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?” (Hb 1, 14).

Os Anjos que serviam a Cristo durante sua vida aqui na terra continuam a servir a Cristo em nós, membros do seu Corpo, que é a Igreja. De modo particular, enquanto Anjos da Guarda, eles se tornam nossos servos para acompanhar-nos no caminho da salvação e conduzir-nos ao céu.

Será que os Anjos são felizes em servir a nós, seus “irmãos menores”?
Os Santos Anjos desejam colaborar na nossa salvação. Disse Jesus:
“Digo-vos que haverá júbilo entre os Anjos de Deus por um só pecador que se converte” (Lc 15,10).
Os anjos veem Cristo em nós, e por isso eles nos servem com muita dedicação e grande zelo. Eles estão conscientes de que o que fizerem a um desses seus irmãos menores será a Cristo que o farão (cf. Mt 25,40). De fato, no Juízo Final, quando Jesus vier na Sua glória, juntamente com todos os Anjos (cf. Mt 25,31), poderemos contemplar com admiração a ação misericordiosa, muitas vezes escondida, mas eficaz dos Anjos, especialmente do nosso Anjo da Guarda, na nossa vida e na história.
Será que a promessa de Jesus sobre os Anjos descendo e subindo vale para todos os homens ou somente para os que, pelo batismo, se tornaram filhos de Deus?

O Catecismo (n.º 336) faz duas afirmações:
“Desde o início até a morte, a vida humana é cercada pela proteção e pela intercessão dos Anjos.”

Portanto, não há dúvida de que todos os homens gozam da proteção e da intercessão dos Santos Anjos ao longo de sua vida, pois todos são chamados à salvação em Cristo. No entanto, há uma grande diferença entre a relação de uma pessoa batizada e uma pessoa não batizada com o seu Anjo da Guarda. Por isso o Catecismo continua citando São Basílio:

“Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida.”
Pelo batismo, somos unidos a Cristo, e n’Ele com todos os outros membros de Seu corpo, isto é, com nossos irmãos aqui na terra e, ao mesmo tempo, com nossos irmãos no céu, ou seja, com os Anjos e Santos. Por conseguinte, somente uma pessoa batizada se torna irmão do seu Anjo, e então pode experimentar uma profunda união com ele em Cristo. De fato, “ainda aqui na terra, a vida cristã participa na fé da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus” (Catecismo, 336).

Sugestões: Medite nesta semana sobre a promessa de Jesus: “Vereis o céu aberto e os Anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem!” (Jo 1, 50-51).
Abra os olhos do seu coração para ver a presença dos Santos Anjos na celebração da Santa Missa e também na sua vida no dia a dia!

Imite os Anjos no seu serviço para com os homens praticando obras de misericórdia! Seja um “Anjo” para seu irmão, sua irmã!
Una-se aos Anjos para adorar Jesus no Santíssimo Sacramento do altar.
E reze com frequência a oração dos Anjos: o “Sanctus”, e experimentará que o céu se abrirá sobre você e os Anjos descerão sobre você e sua casa:
Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo, o céu e a terra estão cheios de sua glória. Hosana nas alturas. Bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas.

Autor: Pe Fidelis Stockl, ORC

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