O alvorecer de uma nova terra: o encontro em porto seguro
Com o crepúsculo tingindo a cena de dourado, Afonso Lopes, piloto da nau capitânia, embarcou em um esquife e foi sondar o porto por dentro. No interior daquela baía, deparou com dois daqueles homens da terra, que pescavam em uma almadia.
De imediato, o piloto os capturou. À cena assistiram, da praia, dezenas de outros nativos que por ali andavam com seus arcos e flechas, porém deles não se utilizaram. Afonso Lopes, então, conduziu os dois nativos para bordo da nau capitânia. Os dois jovens guerreiros foram levados à presença de Pedro Álvares Cabral.
A primeira Missa no Brasil.
O comandante-mor estava assentado em uma cadeira de espaldar alto, colocada sobre uma alcatifa. Seguindo o cerimonial que regia os encontros dos lusos com soberanos do Congo e mercadores árabes da costa oriental da África, Cabral estava bem vestido. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia e Pero Vaz de Caminha reuniram-se em torno do capitão assentados no chão, sobre essa alcatifa. A visão daqueles nobres portugueses – herdeiros dos heróis da batalha de Aljubarrota – pouco impressionou os dois jovens nativos.
Eles não fizeram nenhum sinal de cortesia, nem de falar com o capitão, ou com quem quer que fosse. Por outro lado, o impacto que causaram nos portugueses parece ter sido bem maior.
O choque cultural a bordo da capitânia
Aquele, na verdade, foi o primeiro encontro entre indígenas brasileiros e navegantes lusos. E foi preservado para a posteridade nos mínimos detalhes. De fato, a precisão meticulosa com a qual Pero Vaz de Caminha cuidou de descrevê-lo não configura apenas uma lição de rigor narrativo, mas de precisão antropológica. A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura.
Não fazem o menor caso de cobrir ou mostrar suas vergonhas, e nisso são tão inocentes quanto em mostrar o rosto. Os lusos lhes mostram um papagaio: eles o reconhecem. Uma ovelha: eles a ignoram. Uma galinha: eles se espantam. Da despensa do capitão-mor lhes trazem pão e pescado cozido, confeitos, mel e passas de figo. Tudo lhes repugna: em quase nada tocam. Do pouco que provaram, tudo cuspiram. O vinho lhes foi oferecido numa taça: mal molharam os lábios nele, logo o afastaram.
Em uma albarrada lhes trouxeram água: “Lavaram as bocas com ela e a lançaram fora.” Era água trazida de Portugal, já há quarenta e cinco dias armazenada em um tonel. Ao verem um castiçal de prata e o colar de ouro do capitão, os jovens guerreiros apontam para eles e, a seguir, para a praia, como querendo dizer que ali havia ouro e prata. Tudo Caminha descreve com frescor e minúcia.
Em seguida, os jovens indígenas demonstram entusiasmo muito maior – uma alegria infantil – diante de um simples rosário de contas brancas. E então, por ser já tarde, os dois nativos se deitaram para dormir, em pleno convés, sem nenhuma preocupação de cobrirem suas vergonhas. Caminha observa, assim, que eles não só tinham suas cabeleiras bem raspadas e feitas como não eram “fanados”, ou seja, não eram circuncidados.
A diplomacia dos presentes e o reconhecimento do território
O sábado, 25 de abril, também amanheceu radioso. Tendo a ancoragem sido reconhecida por Afonso Lopes na noite anterior, Pedro Alvarez Cabral ordenou que todas as naus entrassem na baía, logo considerada um porto tão grande, tão formoso e tão seguro, que poderia “abrigar mais de duzentos navios e naus.
De fato, tal baía que, desde 1817, se chama Cabrália possui cerca de doze quilômetros de comprimento e cinco de largura. Assim que a frota ancorou, o capitão-mor ordenou que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias baixassem à terra e levassem aqueles dois homens, com seus arcos e flechas, mas isso depois que fizera presentear a cada um deles uma camisa nova, uma touca vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que eles levaram nos braços, mais cascavéis [guizos] e campainhas.
Do encontro à luz de tochas da noite anterior aos presentes de despedida, toda a cena remete a vários outros encontros iniciais que os portugueses tiveram com outros povos, em outras latitudes, mas se assemelha especialmente ao episódio no qual Vasco da Gama, ao chegar à baía de Santa Helena, na costa ocidental da África, próxima ao cabo da Boa Esperança, capturou ali um nativo, levou-o para a nau capitânia, jantou com ele, deixou-o dormir a bordo e, no dia seguinte, o vestiu muito bem e o mandou pôr em terra.
No entanto, houve uma diferença fundamental entre os dois episódios: ao contrário do que Gama fizera – e, antes dele, todos os navegantes lusos que percorriam a costa da África –, Cabral e seus homens não mostraram especiaria alguma para os índios do Brasil. Esse indício é forte o bastante para comprovar que os lusos, naquele instante, já sabiam que estavam numa terra sem qualquer relação com a África ou com a Ásia. Há também quem prefira ver, no final do episódio, ecos da fábula do homem feliz, que nem camisa possuía e cuja felicidade foi substituída pela avidez no dia em que ganhou uma.
De fato, ao longo das três décadas seguintes, os nativos do Brasil se tornariam progressivamente dependentes dos presentes dados pelos europeus. De qualquer modo, as ressonâncias daquele simples desembarque de fato são múltiplas. No batel, estavam dois futuros personagens dos Lusíadas: Coelho, o navegador da Índia, e Bartolomeu Dias, o trágico herói do cabo das Tormentas. A eles juntou-se Pero Vaz de Caminha, o narrador irretocável.
Na ilustre companhia de Coelho, Dias e Caminha, também seguiu para terra para lá ficar um mancebo degredado, criado de D. João Telo, a quem chamam Afonso Ribeiro. Ribeiro, assassino confesso, era um dos 20 degredados que embarcaram na frota de Cabral. Junto com outro, cujo nome se desconhece, ele de fato seria deixado no Brasil, para andar lá com eles [os nativos] e saber de seu viver e maneiras – mas não a partir daquele momento, já que nem nesse dia nem nos seguintes os índios permitiriam que ele ficasse em terra.
Logo que o batel chegou à praia, os nativos que tinham dormido a bordo saíram correndo para esconder seus presentes. Contudo, vinte outros estavam ali – e eles logo começaram a ajudar os portugueses a encher de água seus tonéis.
Ao contrário do que Gama prudentemente sugerira, Cabral não havia renovado seus estoques de água nas ilhas do Cabo Verde, como faziam todas as expedições. Alguns historiadores veem nessa temeridade de Cabral um sinal claro de que ele tinha deliberado propósito de fazer escalas em terras ocidentais. De outro modo, antes de chegar à Índia, já estaria sem uma gota a bordo. À medida que os tonéis eram enchidos, Coelho e Dias distribuíam guizos e miçangas aos selvagens.
Esses presentes baratos, sobras da viagem anterior à Ásia, chegavam agora a um terceiro continente – no qual, como na África e ao contrário da Índia, fariam grande sucesso. Caminha chegou a observar com mais detalhes as pinturas corporais e os adereços dos nativos.
Quem mais lhe chamou a atenção foi um velho que andava por galanteria cheio de penas pegadas pelo corpo, de tal maneira que parecia um São Sebastião cheio de flechas. Foi também naquele instante que Caminha viu as primeiras mulheres do Brasil.
Ficou impressionado com elas, tão moças e tão gentis, com cabelos muito pretos e compridos. A seguir, com o batel carregado de tonéis repletos de água fresca, ele e seus companheiros retornaram às naus.
Das observações tomadas por Caminha ao longo do dia – especialmente sobre o instante em que um índio se dirigiu a Cabral sem perceber que ele era o chefe, pois ignoravam essa relação –, e também de sua conclusão de que aqueles homens pareciam não ter nenhuma idolatria, crença ou adoração surgiria o provérbio, defendido mais tarde por outros cronistas, segundo o qual os “gentios do Brasil” não pronunciavam as letras f, l e r porque não possuíam fé, lei ou rei.
De fato, somente na década de 1550 em diante é que o conhecimento sobre o Brasil ganharia uma literatura mais específica: de um lado, os autores ibéricos com seus interesses voltados para a colonização; de outro, os não ibéricos, sobretudo franceses, que com base na experiência no Brasil fariam dos índios matéria de reflexão.
Dentre os textos portugueses, o mais conhecido é o de Pero Magalhães Gandavo, criado da Câmara de Dom Sebastião e provedor da Fazenda, copista da Torre do Tombo, o qual deu uma forma quase canônica ao debate que, desde Pero Vaz de Caminha, se referia à colônia a partir da ambivalência entre o éden e a barbárie. Como se costuma perguntar desde os tempos do descobrimento: “O Brasil seria o paraíso ou o inferno? Seus habitantes, ingênuos ou detraídos?” (Schwarcz; Starling, 2015, p. 36).
Em alguns de seus livros, como por exemplo, Tratado da Terra do Brasil e História da Província Santa Cruz, o escritor lusitano não se cansa de tecer elogios às qualidades da terra, região de abundância e de deleitosa primavera. No entanto, no que se refere aos “índios da terra”, ele é mais econômico nos elogios, assim dizendo: “A língua deste gentio toda pela costa é uma: carece de três letras – não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente” (Gândavo, 1995, p. 19).
Na tarde daquele sábado, o capitão-mor saiu em seu batel, com todos nós e com os outros capitães em seus batéis, a folgar pela baía, defronte à praia, que se apresentava deserta. Os botes ancoraram no banco de corais, de tons rubros, batizado de Coroa Vermelha. Ali, onde ninguém podia ir a não ser de barco ou a nado, sentaram-se todos e descansaram por mais de uma hora. Os marinheiros pescaram com uma rede. Ao cair da tarde, retornaram para suas respectivas naus.
A primeira Missa: o altar entre o sagrado e o desconhecido
O dia seguinte, 26 de abril, era domingo de Pascoela (o primeiro após a Páscoa). Cabral mandou que um altar muito bem arranjado fosse erguido da parte emersa do ilhéu da Coroa Vermelha, sob um esperável (espécie de tenda, ou dossel, de forma cônica). Ali, frei Henrique de Coimbra celebrou a primeira missa, junto com os demais frades e capelães. Cabral levava consigo a bandeira de Cristo e a manteve sempre alta durante o Evangelho. Enquanto os portugueses escutavam a missa, com muita satisfação e devoção, a praia encheu-se de nativos. Eles sentaram-se lá, surpresos com as complexidades do ritual, ao qual observavam de longe.
Quando o frei Henrique acabou a pregação, os indígenas se ergueram e começaram a soprar conchas e buzinas, saltando e dançando por um bom tempo. Após o almoço, Cabral voltou a se reunir com os capitães em sua nau e decidiu-se então que a naveta de mantimentos, cujo capitão era Gaspar de Lemos, seria esvaziada e enviada de volta a Portugal com a notícia do descobrimento da nova terra.
A primeira missa no Brasil, celebrada em 26 de abril de 1500 na Bahia, é fundamental por simbolizar a chegada do cristianismo, a oficialização da posse da terra pela Coroa Portuguesa e o início da colonização. Conduzida por Frei Henrique de Coimbra, marcou o encontro cultural e religioso entre europeus e indígenas. A celebração oficializou a tomada de posse da terra, que passou a ser vista como parte do Reino de Portugal, reforçada pela fixação de uma cruz de madeira. A missa estabeleceu o catolicismo como a religião oficial do novo território, marcando o início do processo de evangelização e catequese dos povos indígenas.
A cerimônia, ocorrida na praia da Coroa Vermelha (Porto Seguro/Santa Cruz Cabrália), inaugurou a presença cultural europeia, que moldaria a identidade brasileira ao longo dos séculos. Detalhes da cerimônia foram registrados na carta de Pero Vaz de Caminha, sendo um documento crucial para o início da história escrita do Brasil. A missa passou a ser vista como o “nascimento” cristão do Brasil, que, por um tempo, chegou a ser chamado de “Terra de Santa Cruz”. O evento, celebrado durante a semana de Páscoa de 1500, representa o início do processo de transculturação e a influência cristã na formação da sociedade brasileira.
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O legado pictórico: a obra de Victor Meirelles
A Primeira Missa no Brasil” (1861), de Victor Meirelles, é uma das pinturas mais icônicas da história brasileira. Encomendada por D. Pedro II, a obra de arte retrata o evento de 1500 com uma visão idealizada, focando na harmonia entre portugueses e indígenas para construir uma identidade nacional pacífica durante o Segundo Reinado, baseando-se na carta de Pero Vaz de Caminha. Pintada em Paris entre 1859 e 1861, a tela a óleo foi financiada pelo Império.
A cena exibe uma cruz centralizadora no meio da natureza, com o Frei Henrique de Coimbra celebrando a missa. Indígenas são retratados ao redor, observando com curiosidade e passividade, em um clima de concórdia, diferentemente dos relatos de Caminha que mencionavam comportamento mais ativo.
A obra buscou criar um “mito fundador” para o Brasil, destacando a união das culturas europeia e indígena, além de celebrar a fé católica e o estado português como civilizadores. Meirelles, influenciado pelo estilo acadêmico europeu, utilizou luz intensa sobre o altar para destacar a importância da religião e do encontro. A obra foi um sucesso em Paris e no Brasil, consolidando Victor Meirelles como um dos grandes pintores históricos do país.