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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Papa: Biblioteca Vaticana, um coração pulsante por “novos caminhos de reconciliação”


Ao inaugurar a exposição “AQVA”, que dá início ao ciclo “Catástrofe e maravilha”, Leão XIV se reúne com a equipe do Arquivo Apostólico e da Biblioteca do Vaticano. O Pontífice exorta a seguir em frente, “fiéis ao passado e fiéis ao futuro”, utilizando os meios necessários para prosseguir no caminho do bem. O Pontífice também ganha um bolo para comemorar o seu aniversário de 71 anos.

Benedetta Capelli – Vatican News

“Parabéns”, exclama uma jornalista atrás das barreiras colocadas no Pátio do Belvedere, onde o Papa chega às 11h27 desta segunda-feira, 14 de setembro, a bordo do carro com a placa SCV1 para inaugurar a exposição AQVA, no dia do seu aniversário. Ele responde “obrigado” à distância e, pouco depois, vira-se, atraído pelo coro que canta em espanhol — “Feliz cumpleaños” — que vem do outro lado do Pátio, das janelas dos Museus do Vaticano, improvisado pelos visitantes que puderam, assim, homenagear o Pontífice no dia em que ele completa 71 anos.

Ao descer do carro, o Pontífice foi recebido pelo arcebispo Giovanni Cesare Pagazzi, arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana, acompanhado pelo salesiano Pe. Mauro Mantovani, prefeito da Biblioteca Apostólica Vaticana; Pe. Giacomo Cardinali, vice-prefeito da mesma e curador da exposição; o agostiniano Rocco Ronzani, prefeito do Arquivo Apostólico Vaticano, e a Ir. Raffaella Petrini, presidente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano.

Acompanharam o Papa na visita, os arcebispos Paolo Rudelli, substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado, e Petar Rajič, prefeito da Casa Pontifícia, juntamente com monsenhor Leonardo Sapienza, regente da Prefeitura, e o agostiniano Edward Daniang Daleng, vice-regente. Também estavam os secretários particulares de Sua Santidade, monsenhor Edgard Iván Rimaycuna Inga e Pe. Marco Billeri.


“Catástrofe e maravilha”
Em seguida, chamou a atenção do Papa a instalação criada pelo artista francês JR: uma grande onda em preto e branco que representa a ambivalência da água, maravilha da natureza e, ao mesmo tempo, elemento catastrófico. Uma obra inspirada nas gravuras criadas pelo pintor Gustave Doré para a edição da Bíblia em francês de 1866. Antes de entrar, Leão XIV cumprimenta aqueles que contribuíram para a realização do trabalho: o próprio artista JR, o tipógrafo Bill Moran, o chef Furio Pierangelini e também os promotores da exposição. A mostra dá início ao ciclo “Catástrofe e maravilha”, que pretende propor uma reflexão ampla e interdisciplinar sobre os elementos naturais, entendidos como espelho dos medos e das esperanças da humanidade.

Papa Leão ao visitar a mostra AQVA (@Vatican Media)

A mãe bibliotecária
Depois de visitar a exposição, o Papa Leão XIV, em discurso, inicia fazendo uma referência à história pessoal, o que, neste dia especial para ele, parece não ser apenas uma coincidência:

"Gostaria apenas de dizer que Deus, na sua Providência, e às vezes com um certo humor, nos faz lembrar sempre que Deus está conosco. Muitos de vocês, talvez não saibam, que minha mãe era bibliotecária! E hoje estou aqui, no dia do meu aniversário, justamente para cumprimentar todos."

Sinal de proximidade e apreço
Ao contemplar o acervo de livros guardados na Sala Leonina da Biblioteca Apostólica do Vaticano, percebe-se silêncio e inquietação: o duplo sentido que um leitor apaixonado encontra nas páginas de romances, tratados, orações e nas Sagradas Escrituras. O Papa Leão fala de “sístole” e “diástole”: os dois movimentos do coração para descrever a Biblioteca Apostólica do Vaticano, que hoje visita pela primeira vez como Pontífice “seguindo os passos dos meus predecessores”: "isso pretende ser um sinal da proximidade e do apreço do Papa pela missão do Arquivo Apostólico e da Biblioteca Apostólica, a serviço do desenvolvimento e da divulgação da cultura, em benefício da Igreja e de toda a humanidade", afirma ele.

A ocasião é a inauguração da AQVA, a exposição de abertura do ciclo “Catástrofe e Maravilha”, que pretende propor uma reflexão ampla e interdisciplinar sobre os elementos naturais entendidos como espelho dos medos e das esperanças da humanidade. A água como geradora de vida e força disruptiva, reflexo, portanto, das ansiedades do homem diante do que escapa ao seu controle.

Leão XIV durante a visita à Biblioteca Apostólica Vaticana (@Vatican Media)

Silêncio que convida ao silêncio
O Papa evoca o silêncio e a inquietude em seu discurso, detendo-se na imagem de uma biblioteca como “ambiente pacato, tranquilo”:

"Os livros são silenciosos e exigem silêncio. Na verdade, se, por um lado, um livro pacifica, por outro, desperta inquietação, alimenta o desejo e a coragem da busca. Santo Agostinho é um símbolo dessa dinâmica."

A profundidade do desejo
Na alma do santo de Hipona havia vitalidade, mas também o tormento causado pelas forças que se chocavam dentro dele e que lançavam “gritos desesperados”, acalmados apenas pela voz de uma criança que o exortou, como ele narra nas Confissões, a pegar um livro e lê-lo. As palavras da Carta aos Romanos de São Paulo – conta o Papa – dissiparam as dúvidas de Agostinho, mas, acima de tudo, despertaram o desejo de ler e compreender ainda mais a profundidade das Sagradas Escrituras:

"O livro das Escrituras que chegou às mãos de Agostinho é o mesmo que abriu o seu espírito. Queridos irmãos, todos vocês, ao guardar, estudar e colocar à disposição dos estudiosos os livros do Sucessor de Pedro, ajudam a Igreja e a humanidade a estar à altura da profundidade desse desejo. Sem ele, tudo se afasta do Deus vivo, fonte da verdade e do amor."
Coração que pulsa

Eficaz é a imagem que Leão evoca para descrever a Biblioteca do Papa:
"A Biblioteca Apostólica é um coração. O batimento do coração é o símbolo da vida e resulta de dois movimentos opostos, a sístole e a diástole: uma contração e uma distensão, um movimento em direção ao centro e outro em direção à periferia. Também a Biblioteca Apostólica permanece viva na medida em que assegura a própria sístole e a própria diástole."

Não é só um banco de livros
Para dar corpo à sístole, à contração do coração, o Bispo de Roma convida a considerar a Biblioteca Apostólica como “um lugar rico em discrição, tranquilidade, respeito e cuidado”, um ambiente “quase monástico” onde sentar-se e estudar o “único tesouro inestimável que guarda”. Mas não se trata apenas disso.

"Se, por um lado, é necessário facilitar o estudo, inclusive por meio da digitalização e do compartilhamento oferecido pelo ambiente digital, por outro, é preciso manter e incentivar o antigo gesto de se deslocar fisicamente até a Biblioteca. Ela, de fato, não é apenas um banco de livros que se pode consultar comodamente do computador de casa, mas uma atmosfera composta de laços, diálogo, troca de ideias."

A abertura cultural da Igreja
A imagem da diástole, a fase de relaxamento do coração, remete à abertura da Biblioteca Apostólica a partir do pontificado do Papa Leão XIII, a quem é dedicada a sala em que Leão XIV discursa. “Um pastor — afirma ele — capaz de compreender as questões mais dramáticas da época, como as mudanças decorrentes da revolução industrial”, mas também capaz de “grandes avanços culturais, como a abertura do Arquivo Vaticano a estudiosos de todo o mundo e a ampliação do acesso à Biblioteca”, que outrora era um antigo depósito de armas.

O Papa destaca a origem humanística da Biblioteca, que contém “não apenas obras de teologia, mas também de literatura, filosofia, astronomia, física, matemática, geografia, botânica, zoologia, medicina, história, direito, arte e economia”:

"Não apenas livros europeus e cristãos, mas também volumes escritos em outros contextos religiosos, provenientes de todos os cantos do mundo. E isso muitos séculos antes de que se tornasse uma sensibilidade universalmente compartilhada. Com esse espírito, a Biblioteca Apostólica testemunha a antiga e nova abertura cultural da Igreja."

Caminhos de reconciliação
“Também o ciclo de exposições iniciado hoje — destaca o Papa — confirma isso”. Leão fala da “diplomacia gentil que encontra, entre os documentos e os livros do Arquivo e da Biblioteca do Vaticano, um caminho aberto”, uma das “portas de reconciliação” mencionadas na Encíclica Magnifica humanitas quando, no ponto 221, lembra que “nas noites mais escuras, o Senhor suscita homens e mulheres capazes de não se resignarem e de perseverarem no bem”, “sustentados por uma esperança teologal que confere à realidade um horizonte e uma direção”.

"E então, vamos em frente! Fiéis ao passado e fiéis ao futuro, com as linguagens e os meios que lhes são próprios, encontrem novos caminhos de reconciliação."

A atenção da Santa Sé
O Bispo de Roma, antes de se despedir, anuncia ter dado instruções para a criação de novos espaços, ciente da urgência que une a Biblioteca Apostólica e o Arquivo Apostólico:

"Pretendo seguir o caminho traçado pelos meus predecessores, os quais, ao longo dos séculos, demonstraram a atenção da Sé Apostólica para com as instituições que preservam e promovem a memória cultural e administrativa."


Papa Leão e o bolo ao aniversariante (@Vatican Media)
Após o discurso, o Papa Leão foi homenageado com um bolo no qual há uma velinha amarela, que é apagada logo em seguida. Às 12h57, ele reaparece no Pátio do Belvedere para pegar o carro e partir, encerrando a visita. À sua espera no carro está o desenho de Lorenzo, de 7 anos, no qual o Pontífice é retratado vestido de branco, com um grande arco-íris colorido ao lado e a inscrição “Happy Birthday Pope Leo”. Um presente que surgiu espontaneamente do desejo de oferecer, como manda a tradição, um presente ao aniversariante mais importante do dia.

O desenho de Lorenzo dado ao Papa

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sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Como surgiu o terço da Divina Misericórdia?


“Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro”

Jesus ensinou a Santa Faustina o Terço da Misericórdia e pediu que o espalhasse pelo mundo; graças a Deus se espalhou; é uma fonte de graça e de misericórdia, especialmente para os moribundos.

Segundo o Diário de Santa Faustina, a partir de uma visão em 13 de setembro de 1935, Irmã Faustina escreveu: “Eu vi um anjo, o executor da cólera de Deus […] a ponto de atingir a terra […] Eu comecei a implorar intensamente a Deus pelo mundo, com palavras que ouvia interiormente. À medida em que assim rezava, vi que o anjo ficava desamparado, e não mais podia executar a justa punição […]”.

No dia seguinte, uma voz interior lhe ensinou esta oração nas contas do rosário: “Primeiro reze um ‘Pai Nosso’, uma ‘Ave Maria’, e o ‘Credo’. Então, nas contas maiores diga as seguintes palavras:

‘Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e do mundo inteiro’.
Clique para se aprofundar mais em Orações de todos os tempos da Igreja
Nas contas menores, diga as seguintes palavras: ‘Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro’.

Conclua dizendo estas palavras três vezes: ‘Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro'”.

Mais tarde, Jesus disse a Irmã Faustina: “Pela recitação desse Terço agrada-me dar tudo que Me pedem. Quando o recitarem os pecadores empedernidos, encherei suas almas de paz, e a hora da morte deles será feliz.

Escreve isto para as almas atribuladas: Quando a alma vê e reconhece a gravidade dos seus pecados, quando se desvenda diante dos seus olhos todo o abismo da miséria em que mergulhou, que não desespere, mas se lance com confiança nos braços da minha Misericórdia, como uma criança nos braços da mãe querida. Estas almas têm sobre meu Coração misericordioso um direito de precedência. Dize que nenhuma alma que tenha recorrido a minha Misericórdia se decepcionou nem experimentou vexame […]”

“[…] Quando rezarem este Terço junto aos agonizantes, Eu me colocarei entre o Pai e a alma agonizante, não como justo Juiz, mas como Salvador misericordioso”.


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Prisão de freiras desencadeia protestos contra perseguição na Índia

Freiras vestindo hábitos oram ao lado de noviças na Convenção Bíblica de Indore em Madhya Pradesh, em outubro de 2023. | Anto Akkara


31 de jul de 2025 às 10:11

A prisão de duas freiras acusadas de conversão e tráfico de pessoas no Estado de Chattisgarh, Índia, desencadeou uma onda de protestos.

Os protestos começaram com as prisões em 25 de julho e se intensificaram desde que a libertação das freiras foi adiada. O governo nacionalista hindu do Partido Bharatiya Janata (BJP) que se opõe à fiança para as religiosas.

"Que tipo de justiça é essa?", perguntou ontem (30) o arcebispo maior de Trivandrum, cardeal Baselios mar Cleemis, da Igreja Siro-Malabar, ex-presidente da Conferência dos Bispos Católicos da Índia (CBCI, na sigla em inglês).

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O cardeal falava ao final de uma marcha de protesto até a Assembleia Legislativa de Kerala em Thiruvananthapuram, exigindo a "libertação imediata" das freiras, que são de Kerala, centro do cristianismo na Índia.

Em 27 de julho, a CBCI expressou "indignação e profunda preocupação com a recente prisão" das freiras na estação ferroviária de Durg, em Chattisgarh. As religiosas foram presas quando chegaram à estação para receber três jovens em seus conventos.

A irmã Preetha Mary e a irmã Vandana Francis pertencem à congregação das Irmãs de Maria Imaculada de Assis. A polícia as acusou de "conversão e tráfico de pessoas", disse a CBCI.

Segundo a CBCI, as freiras foram "submetidas a assédio, falsas acusações e casos fabricados”.

“Elas foram agredidas fisicamente e a prisão ocorreu apesar das cartas de consentimento por escrito emitidas pelos pais de cada mulher acima de 18 anos de idade", disse a conferência episcopal.

"Elementos antinacionais", como "grupos fundamentalistas hindus", estão "rastreando os movimentos das freiras católicas", diz a CBCI.

"Tais incidentes não só ameaçam a modéstia das mulheres, mas também colocam suas vidas em grave perigo”, diz a conferência episcopal. “Essas repetidas ações injustificadas são uma grave violação da Constituição e não podem ser toleradas".

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"É absolutamente chocante e triste que as duas religiosas tenham sido detidas ilegalmente sob falsas acusações de tráfico humano e conversão forçada", disse ontem à CNA, agência em inglês da EWTN, a irmã M. Nirmalini, presidente da ala feminina da Conferência da Índia Religiosa.

"Chocantemente, as acusações foram feitas sem apurar ou verificar os fatos", disse a freira, membro da Congregação Apostólica do Carmelo.

"Toda uma brigada anti-minoria está provocando um frenesi para criar uma narrativa falsa e polarizar as pessoas contra os cristãos e particularmente os tribais", disse Nirmalini. "Isso deve parar imediatamente e os responsáveis e a polícia local devem ser autuados pelas autoridades superiores".

"Algumas congregações pediram aos membros que evitassem hábitos tradicionais em locais públicos para evitar assédio", disse Nirmalini.

"Até o presidente do BJP de Kerala [criticou] a prisão das freiras. No entanto, elas continuam presos por acusações forjadas", disse Cleemis, que junto com uma dúzia de bispos usava fitas pretas no rosto, enquanto centenas de freiras, padres e até não-católicos se uniram ao recente protesto na capital de Kerala.

Rajeev Chandrasekhar, presidente do BJP em Kerala, disse a repórteres em Nova Délhi, capital da Índia: "Nossa principal prioridade é proteger as freiras e garantir a justiça".

"A perseguição das freiras, prendendo-as, é uma vergonha para o país", disse ontem (30) John Brittas, membro católico da câmara alta do Parlamento Indiano, em debate parlamentar.

Protestos continuaram em várias outras cidades de Kerala e em outros lugares, como Bangalore, enquanto as freiras continuam a definhar na prisão.

"Não se pode manter a Constituição indiana como refém”, disse o arcebispo de Thrissur, Andrews Thazhath, em protesto na última terça-feira (29). “Prender freiras por oferecerem emprego a jovens cristãs com o consentimento de seus pais é uma vergonha nacional".


sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

SÃO FRANCISCO DE SALES: O BISPO, O DOUTOR E O “JORNALISTA”


No dia 24 de janeiro, a Igreja celebra a memória de São Francisco de Sales, uma das figuras mais ilustres da história da Igreja, cuja vida e ensinamentos continuam a nos inspirar, mesmo após mais de 400 anos de sua morte. Francisco nasceu em uma família nobre na região da Sabóia, que, na época, abrangia áreas que hoje pertencem à França, Itália e Suíça. O desejo de seu pai era que Francisco se casasse e assumisse os negócios da família, mas isso não estava no coração do jovem. Francisco tinha o desejo de consagrar sua vida completamente a Deus, o que fez de fato ao se tornar sacerdote.

COMO ESTAVA A EUROPA NA ÉPOCA DE SÃO FRANCISCO DE SALES?

Francisco nasceu na segunda metade do século XVI, um período em que a Igreja enfrentava uma de suas maiores crises. No início do século, o protestantismo surgiu na Alemanha e se espalhou rapidamente por muitos países. Alguns reinos se afastaram da fé católica ‘da noite para o dia’, como a Inglaterra, a Holanda e os países escandinavos.

Um dos lugares mais afetados pelas ‘novas ideias’ foi a Suíça, especialmente na região de Genebra, onde viveu João Calvino, um dos principais reformadores, ao lado de Lutero. Para agravar ainda mais o cenário, ocorreram guerras religiosas em várias regiões. A Igreja precisava, mais do que nunca, de pessoas preparadas para dedicar sua vida ao ideal de salvação das muitas almas que estavam se perdendo.

A Igreja precisava de alguém que fosse inteligente e erudito o suficiente para apontar os erros dos protestantes. Também necessitava de alguém disposto a dedicar a vida inteira à obra da evangelização. Além disso, precisava de alguém que tivesse o dom de se expressar de maneira simples e fosse capaz de atingir os corações. Mais do que tudo, a Igreja precisava de santos. E encontrou tudo isso na pessoa de São Francisco de Sales!

O COMBATE PELAS ALMAS

Após se destacar como sacerdote, Francisco foi ordenado bispo em 1602. No entanto, não foi designado para uma região tranquila e organizada. Ele foi escolhido como bispo de Genebra, justamente aquela região da Suíça que havia sido totalmente dominada pelos ideais protestantes. O local estava tão fechado ao catolicismo que Francisco de Sales precisou se estabelecer em Annecy e realizar suas ações pastorais à distância. Foi alvo de perseguições e muitos perigos, mas dedicou cada gota de suor à conversão das pessoas.

Em pouco tempo, a diocese de São Francisco se tornou conhecida em toda a Europa pela organização eficiente, pelo zelo do seu clero e, principalmente, pelo elevado grau de instrução dos leigos. Entre pregações, cartas e direções espirituais, o santo transformou a vida de milhares de pessoas.

Um fato específico merece ser destacado. Sabendo que os protestantes não tolerariam ouvi-lo pregando, pois possuíam ideias erradas e preconceituosas sobre a Igreja, Francisco escolheu um meio bastante curioso de defender a fé: ele escrevia panfletos sobre diversos assuntos, com o objetivo de esclarecer dúvidas e ensinar às pessoas. Esses panfletos eram colocados por ele embaixo das portas durante a noite, mostrando-se um excelente meio de promoção da fé.

É por esta razão, aliás, que São Francisco de Sales foi nomeado padroeiro dos jornalistas, e seu dia (24 de janeiro) passou a ser considerado o ‘Dia Mundial das Comunicações Sociais’. Isso deveria servir de incentivo a todos nós, especialmente no contexto das mídias sociais, em que, às vezes, esta é a única forma de alcançar a atenção das pessoas.

O DEFENSOR DA SANTIDADE COMUM

Uma das maiores diferenças entre as ideias protestantes e o ensinamento tradicional da Igreja é o fato de que nós acreditamos firmemente na santidade, enquanto os protestantes a veem como algo impossível e inalcançável nesta vida. O fato é que, mesmo dentro da nossa Igreja, costumava existir, no tempo de São Francisco de Sales, uma visão distorcida sobre a santidade. Muitas pessoas acreditavam que essa realidade era destinada apenas a poucos, justamente àqueles que viviam uma consagração total a Deus por meio do sacerdócio ou da vida religiosa.

Mas o bispo Francisco levantou sua voz para corrigir essa distorção. Ele passou a lembrar às pessoas que a santidade era possível para todos nós, mesmo para aqueles que são casados e possuem empregos comuns. Ou seja, não são apenas o monge ou a freira que são chamados à perfeição cristã, mas todos os batizados!

Todos os escritos do santo eram repletos dessa convicção, a qual, séculos depois, foi reafirmada pela Igreja através da constituição dogmática Lumen Gentium. O livro Introdução à Vida Devota (ou Filotéia), escrito por São Francisco de Sales, ressalta o tempo todo a nossa vocação universal à santidade – e, não à toa, é considerado uma das obras-primas da história do cristianismo.

OS FRUTOS DE FRANCISCO PARA A IGREJA

São Francisco de Sales provou com a própria vida que a santidade era possível. Ele, que possuía um temperamento colérico e explosivo, passou a ser conhecido como o ‘Doutor da doçura e da suavidade’. O santo faleceu cedo, aos 55 anos, em 1622, mas viveu tempo suficiente para transformar sua diocese e toda a Igreja. Além das suas belíssimas obras, das cartas extremamente instrutivas e do seu exemplo contagiante, São Francisco de Sales fundou (junto com sua amiga Santa Joana de Chantal) a Ordem religiosa da Visitação. Posteriormente, seu modelo influenciou o grande São João Bosco a criar uma ordem que levava, inclusive, o seu nome: os Salesianos.

Que São Francisco de Sales interceda por nós, especialmente para que sejamos corajosos e santos em meio às constantes crises que se apresentam no mundo.

Rafael Libório
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

O Escapulário de Nossa Senhora do Carmo é uma proteção nos perigos

Quem não o trará consigo como penhor de salvação eterna e proteção nos perigos, se Deus o concedeu ao mundo para honrar Sua Mãe e ajudar a salvar e proteger os seus filhos justos e pecadores?

Foi em 16 de julho de 1251 que Nossa Senhora, aparecendo a São Simão Stock, superior geral dos Carmelitas, entregou-lhe o escapulário dizendo: “Recebe, meu filho, este Escapulário da tua Ordem, como sinal distintivo da minha confraria e selo do privilégio que obtive para ti e para todos os Carmelitas. O que com ele morrer não padecerá o fogo eterno. Este é um sinal de salvação, uma salvaguarda nos perigos e prenda de paz e de aliança eternas”.

O Escapulário é um sinal de salvação e uma salvaguarda nos perigos

Setenta anos mais tarde, aparece a Virgem ao Papa João XXII, confirma essa promessa e acrescenta outra, chamada a do privilégio sabatino, em que, mediante determinadas condições, a alma do confrade Carmelita será livre do Purgatório se lá estiver, no sábado a seguir de sua morte. Os Soberanos Pontífices consideram como pertencentes à Ordem do Carmo todos os que recebem o seu escapulário. Para que todos possam usufruir das graças inerentes ao Escapulário, Sua Santidade, o Papa Pio X, em 16 de dezembro de 1910, concedeu que o Escapulário, uma vez imposto, pudesse ser substituído por uma medalha que tenha de um lado Nossa Senhora sob qualquer invocação (Carmo, Dores, Conceição, Fátima etc.), e do outro lado o Coração de Jesus, e benzida com o simples sinal da cruz, na intenção de substituir este Escapulário.

Em 28 de janeiro de 1964, o Papa Paulo VI concedeu ainda que todos os sacerdotes pudessem impor o Escapulário e substituí-lo pela respectiva medalha, pois, até aí, era um privilégio dos Padres Carmelitas e de outros sacerdotes que o pedissem à Santa Sé, e nisso se mostra o desejo da Santa Igreja de que todos o tragam.

Leia mais:
Imposição do Escapulário por um sacerdote

Oração: Senhor Jesus Cristo, Salvador dos homens, abençoai este hábito de Nossa Senhora de Carmo, que, como sinal de Consagração a Maria, vai ser imposto ao vosso servo, para que, pela intercessão de Maria Santíssima, possa alcançar maior plenitude de graça. (Asperge o Escapulário com água benta)

Imposição: Recebe esse santo hábito, para que, trazendo-o com devoção, defenda-te do mal e conduza-te à vida eterna. Amém. (Coloca-o ao pescoço da pessoa)

– Participas desde este momento de todos os bens espirituais de que gozam os religiosos do Carmo, em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

– Amém.

– O Senhor que se dignou admitir-te entre os confrades do Carmo, te abençoe; e mediante este sinal de consagração, faça-te forte na luta desta vida e te conduza à felicidade eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém. (Asperge o Confrade com água benta)

[Com Aprovação Eclesiástica]

sexta-feira, 17 de maio de 2024

A mais antiga oração de Nossa Senhora


No ano de 1927, no Egito, foi encontrado um fragmento de papiro que remonta ao século III. Neste fragmento estava escrito: “À vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita!”.
Esta oração conhecida com o nome “Sub tuum praesidium” (À vossa proteção) é a mais antiga oração a Nossa Senhora que se conhece. Tem ela uma excepcional importância histórica pela explícita referência ao tempo de perseguições dos cristãos (Livrai-nos de todo perigo) e uma particular importância teológica por recorrer à intercessão de Maria invocada com o título de Theotokos (Mãe de Deus).

Este título é o mais belo e importante privilégio da Virgem Santíssima. Já no século II, era dirigido à Maria e foi objeto de definição conciliar em Éfeso no ano de 431. Maria, Mãe de Deus! Qual é, na mente da Igreja e da Tradição, o genuíno e profundo sentido deste dogma mariano central?

Santo Tomás de Aquino afirma que pelo fato de ser mãe de Deus: “A Bem-aventurada Virgem Maria está revestida de uma dignidade quase infinita, a causa do bem infinito que é o mesmo Deus. Portanto, não se pode conceber nada mais elevado que ela, como nada pode haver mais excelso que Deus” (Suma Teológica 1, q.25, a.6 ad 4.). E, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica.

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Denominada nos Evangelhos “a Mãe de Jesus” (João 2,1;19,25 [a72]), Maria é aclamada, sob o impulso do Espírito, desde antes do nascimento de seu Filho, como “a Mãe de meu Senhor” (Lc 1,43). Com efeito, Aquele que ela concebeu Espírito Santo como homem e que se tornou verdadeiramente seu Filho segundo a carne não é outro que o Filho eterno do Pai, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A Igreja confessa que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (CIC §495)

O Concílio de Éfeso tem a glória de ser o grande Concílio Mariano, pois seu dogma destruiu a maior heresia contra a Virgem e pôs a pedra angular de toda a Mariologia. A Igreja com o decorrer do tempo iria descobrindo os grandes tesouros encerrados na Maternidade Divina de Maria.

Porém, é necessário compreender o que a Igreja quer dizer quando fala em Maria como Mãe de Deus. Jesus Cristo, segunda pessoa da santíssima Trindade, existe desde toda a eternidade. Ele procede do Pai por uma geração espiritual, na qual não intervém evidentemente nenhuma criatura humana. Portanto, Maria não é mãe do Filho de Deus quanto à sua origem divina, mas é mãe do “verbo encarnado”, do Filho de Deus feito homem.
Maria deve ser chamada Mãe de Deus, porque a maternidade se refere sempre à pessoa. A mãe de um homem não é só a mãe de seu corpo. Ela é mãe da pessoa toda. Assim também Maria é mãe de seu Filho, como pessoa divina e humana que Cristo é.


Convém ainda recordar que esta questão já foi tratada na era Patrística, isto é, no Cristianismo primitivo. De fato, Nestório, bispo de Constantinopla, negava o título de “Theotokos” (Mãe de Deus) a Maria. Nestório sabia muito bem que isto significava a consequente negação da natureza de Cristo, homem e Deus.

A mesma história Patrística mostra a forte reação dos cristãos contra Nestório, que resultou no Concílio de Éfeso, no ano de 431, reconhecendo a legitimidade do título de Mãe de Deus, dado a Maria, e condenando as ideias nestorianas.

Diácono Inácio de Almenida EP.
Fonte: Gaudium Press



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terça-feira, 9 de abril de 2024

É verdadeira a ressurreição de Jesus?


Os vinte longos séculos do Cristianismo, repletos de êxito e de glória, foram baseados na verdade da Ressurreição de Jesus.

Toda a nossa alegria e esperança estão na Ressurreição do Senhor; por isso a Páscoa é a maior festa do calendário litúrgico. A ressurreição do Senhor é a garantia da nossa ressurreição para a vida eterna em Deus, quando então, como nos assegura São Paulo, “Deus será tudo em todos” (1 Cor 15,28).

Cristo passou pela morte para destruir a nossa morte e ressuscitou para nos dar uma nova vida, pois: “Todo aquele que está em Cristo, é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!” (2 Cor 5,17).

Pelo batismo, o Senhor aplica a cada um de nós a salvação que Ele nos conquistou. Por isso, esse é o primeiro sacramento a ser ministrado a cada fiel. Ensinou-nos o apóstolo: “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo, para que como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do pai, assim nós também vivamos uma vida nova” (Rm 6,3-4).

São Paulo deixou muito clara essa verdade essencial da nossa fé, ao repetir aos colossenses: “Sepultados com Ele no batismo, com Ele também ressuscitastes por vossa fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos” (Cl 2,12).

No batismo nosso homem velho, escravo do pecado e do demônio, foi pregado na cruz santa do Senhor, morreu e, então, saiu da água ressuscitado. Ali foi cancelado “o documento escrito contra nós, cujas prescrições nos condenavam. [O Senhor] aboliu-o definitivamente, ao encravá-lo na Cruz” (Cl 2,14). Por isso disse o Apóstolo: “Somos cidadãos dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso” (Fl 3,20).

Que maravilha! Nosso corpo será semelhante ao corpo glorioso do Senhor ressuscitado! Que mais poderemos desejar? É em vista disso que São Paulo bradou aos incrédulos: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a nossa fé” (I Cor 15,14). E mais, disse ele: “Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima” (I Cor 15,19).

A ressurreição do Senhor é a garantia da nossa. O apóstolo nos ensinou que “semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso” (1 Cor 15,42b-43). E, quando isto acontecer, disse o Apóstolo: “Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade […] então se cumprirá a palavra da Escritura: “A morte foi tragada pela vitória” (Is 25,8). “Onde está ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (Os 13,14)” (1 Cor 15,54-55). Cristo, com a Sua morte, destruiu o aguilhão (o ferrão) da morte, que é o pecado (cf. I Cor 15,56-57). Essa é a essência da nossa fé.

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Com toda a diligência os Apóstolos anunciavam ao povo a ressurreição do Senhor. Já em Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, Pedro lhes dizia: “A este Jesus, Deus o ressuscitou: do que todos nós somos testemunhas” (At 2,32). “Vós o matastes crucificando-o por mãos de ímpios. Mas Deus o ressuscitou, rompendo os grilhões da morte” (At 2,23b-24a). Na casa de Cornélio, Pedro repetiu: “Eles o mataram, suspendendo-o num madeiro. Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia, e permitiu que aparecesse (…) às testemunhas que Deus havia predestinado, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressuscitou” (At 10, 39b-41).

Em vista de tudo isso São Paulo advertiu: “Se, portanto ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,1-3).

Essa é a dimensão nova que a ressurreição do Senhor deve trazer à nossa vida “É hora de deixarmos de lado o homem velho com os seus vícios: ira, maledicência maldade, inveja, ciúme, palavra torpe, soberba, vaidade, luxúria, preguiça, etc., e buscarmos os frutos do Espírito Santo: amor alegria, paz, bondade, paciência, mansidão, confiança, auto-domínio” (Gl 5,19-22). E, acima de tudo, como disse o apóstolo: “Revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14).

A Igreja não tem dúvida em afirmar que a Ressurreição de Jesus foi um evento histórico e transcendente. No §639, o Catecismo afirma: “O mistério da Ressurreição de Cristo é um acontecimento real que teve manifestações historicamente constatadas, como atesta o Novo Testamento. Já S. Paulo escrevia aos Coríntios pelo ano de 56: “Eu vos transmiti… o que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Kefas, e depois aos Doze” (1Cor 15,3-4). O apóstolo fala aqui da viva tradição da Ressurreição, que ficou conhecendo após sua conversão às portas de Damasco.

O primeiro acontecimento da manhã do Domingo de Páscoa foi a descoberta do sepulcro vazio (cf. Mc 16, 1-8). Ele foi a base de toda a ação e pregação dos Apóstolos e foi muito bem registrada por eles. São João afirma: “O que vimos, ouvimos e as nossas mãos apalparam isto atestamos” (1 Jo 1,1-2). Jesus ressuscitado apareceu a Madalena (Jo 20, 19-23); aos discípulos de Emaús (Lc 24,13-25), aos Apóstolos no Cenáculo, com Tomé ausente (Jo 20,19-23); e depois, com Tomé presente (Jo 20,24-29); no Lago de Genesaré (Jo 21,1-24); no Monte na Galileia (Mt 28,16-20); segundo S. Paulo “apareceu a mais de 500 pessoas” (1 Cor 15,6) e a Tiago (1 Cor 15,7).

São Paulo atesta que Ele “… ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e foi visto por Khefas, e depois pelos Onze; depois foi visto por mais de quinhentos irmãos duma só vez, dos quais a maioria vive ainda hoje e alguns já adormeceram; depois foi visto por Tiago e, em seguida, por todos os Apóstolos; e, por último, depois de todos foi também visto por mim como por um aborto” (1 Cor 15, 3-8).

“Deus ressuscitou esse Jesus, e disto nós todos somos testemunhas” (At 2, 32). “Saiba com certeza toda a Casa de Israel: Deus o constituiu Senhor (Kýrios) e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (At 2, 36). “Cristo morreu e reviveu para ser o Senhor dos mortos e dos vivos” (Rm 14, 9). No Apocalipse, João arremata: “Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos, e tenho as chaves da Morte e da região dos mortos” (Ap 1, 17s).
A primeira experiência dos Apóstolos com Jesus ressuscitado, foi marcante e inesquecível: “A paz esteja convosco!” “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu”! “Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. Tomou-o então e comeu-o diante deles” (Lc 24, 34ss).

Os vinte longos séculos do Cristianismo, repletos de êxito e de glória, foram baseados na verdade da Ressurreição de Jesus. Afirmar que o Cristianismo nasceu e cresceu em cima de uma mentira e fraude seria supor um milagre ainda maior do que a própria Ressurreição do Senhor.

Por Cristo ressuscitado milhares de fiéis enfrentaram a morte diante da perseguição dos judeus e dos romanos. Multidões foram para o deserto para viver uma vida de penitência e oração; multidões de homens e mulheres abdicaram de construir família para servir ao Senhor ressuscitado. Sua Igreja já sobrevive por 2000 anos, vencendo todas as perseguições. Já são 266 Papas, 21 Concílios Ecumênicos, e hoje são cerca de 4 mil bispos e 416 mil sacerdotes e 2 bilhões de fiéis. E não se trata de gente ignorante ou alienada; muito ao contrário, são universitários, mestres, doutores. “Eis que estou convosco todos os dias [Ressuscitado!] até o fim do mundo!” (Mt 28,20).

Prof. Felipe Aquino




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sexta-feira, 5 de abril de 2024

A Ressurreição, mito ou realidade?


A Ressurreição é o centro da fé cristã: o cristianismo mantém-se de pé ou desmorona completamente sobre este evento, já que a Ressurreição de Jesus crucificado é o ato decisivo que não somente revelou em toda a sua profundidade o mistério de Jesus de Nazaré como Messias e Filho de Deus e, de modo definitivo e insuperável, o Deus tripessoal, mas também inaugurou a conclusão da história e a plenitude de nossa salvação.

Diante deste ponto crítico, deste evento único, que escapa à nossa experiência, o homem se vê desafiado a fazer uma opção que decidirá toda a sua existência e seu modo de compreender-se a si e ao mundo: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa esperança, vazia também é a vossa fé” (1Cor 15,14). Esta afirmação do Apóstolo é absoluta, definitiva, sem apelo!

Do ponto de vista da credibilidade de Jesus – ele é o Messias, ou apenas mais um iludido, como tantos na história? -, a Ressurreição constitui o sinal central dirigido por Deus ao homem para levá-lo ao reconhecimento e à proclamação da filiação divina de Jesus. No entanto, é necessário deixar claro que tal sinal deve ser acolhido na fé; se há sinais de credibilidade que fundamentam a fé na Ressurreição, por outro lado, não há uma “prova” irrefutável que destruiria qualquer dúvida sobre a pessoa de Cristo. E aqui é necessário dizer: esta relação claro-escuro, esta dialética de sinais que indicam e falta de provas que definam de modo irrefutável faz parte da estrutura da fé. Pense o meu Leitor: se a fé se fundamentasse numa evidência incontestável, já não seria mais fé nem deixaria espaço para o salto da liberdade; por outro lado, se não houvesse sinais de credibilidade em que o crente se apoiasse no seu ato de fé, então a fé seria superstição, seria arbitrariedade absurda, indigna do homem, com sua inteligência e liberdade dadas por Deus!

O racionalismo e os teólogos por ele influenciados negaram a objetividade da Ressurreição. Eis algumas de suas teorias, bem arbitrárias e gratuitas, motivadas pelo preconceito racionalista (que deseja enquadrar toda a realidade na gaiola da medida da razão humana) e imanentista (que de modo gratuito e arbitrário exclui toda ação de Deus no mundo):

1. Jesus não morrera na cruz; fora retirado dela ainda com vida, sepultado e reavivado no sepulcro e dele retirado.

Foi assim que apareceu aos seus discípulos. O Novo Testamento, porém, não tem nenhuma informação que apoie tal teoria. Ao contrário, afirma claramente que Jesus morreu realmente (cf. 1Cor 15,3b-5). Outras fontes, não-cristãs, confirmam esta realidade: Flávio Josefo, nas Antiguidades 18,63s, Tácito, historiador romano, em seus Anais 15,44 e até uma obscura passagem do Talmud babilônio afirma que Jesus foi apedrejado na véspera da Páscoa. Não há nenhuma entre os judeus que dê base a esta teoria. Além do mais, como poderia um semi-morto aparecer cheio de glória?

2. A Ressurreição de Jesus seria plágio dos mitos de deuses que morrem e ressuscitam, como Dionísio, Ísis, Osíris e o culto a Adônis.

Tal paralelismo não tem o menor sentido. Os deuses mitológicos em geral seguem o ciclo das estações; no caso de Adônis, seu mito em nada tem o significado da Ressurreição de Jesus: Adônis fora morto enquanto caçava um javali; cada ano permitia-se que subisse dos abismos e, por seis meses, procurasse sua amante. Nenhum devoto desse deus afirmou jamais que ele morreu por amor pela humanidade e que ressuscitou por nós e por nossa salvação! Seu retorno era o mito cíclico da vegetação, um assunto anual da natureza, não uma Ressurreição final de uma vez por todas entre os mortos.

3. A Ressurreição de Jesus reduzir-se-ia a uma mudança na percepção e na vida dos discípulos, sem nenhuma transformação real em Jesus: ele ressuscitara no coração de seus discípulos que o amaram e o sentiram próximo.

Ele ressuscita de novo, a cada dia, nos corações de todos os homens. Então, o que aconteceu após a crucificação seria somente a descoberta, por parte dos discípulos, do sentido, do significado de Jesus. Ora, não é nesta direção que os documentos do Novo Testamento apontam! Eles testemunham todo o tempo que o Pai ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos (cf. Gl 1,1).

4. O desastre da crucifixão causou tal impacto nos discípulos, que provocou neles alucinações.

Já Celso, no século II, defendia tal teoria. Tratar-se-iam, então, de visões simplesmente subjetivas. Ora, tal teoria não se sustenta: primeiro, os discípulos não creram logo nas aparições (cf. Mt 28,17; Lc 24,36s; Jo 20,24s); também o fato de que Jesus não era logo reconhecido pelos que o viram atesta contra a ideia de alucinação; além do mais, as aparições realizavam-se nas situações mais corriqueiras da vida. Falar, portanto, em alucinações, é gratuito!

5. Os apóstolos fraudaram, pura e simplesmente, roubando o corpo e inventando a ideia de Ressurreição.

Isto contraria totalmente o que sabemos dos apóstolos: eles não eram desonestos, não eram espertos e corajosos, estavam desalentados e confusos, eles não morreria para testemunhar uma fraude! Interessante também observar o cuidado das comunidades cristãs em preservar os textos intactos, apesar das discrepâncias em suas narrativas. Este dado revela o respeito dos primeiros cristãos por suas fontes: não eram nem visionários, nem exaltados, nem fraudadores!

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Vejamos, agora, algumas reflexões sobre a credibilidade da Ressurreição:

1. Fato histórico incontrastável é a brusca e inexplicável mudança de atitude e comportamento dos discípulos.

Durante todo o ministério de Jesus, muitíssimas vezes os evangelhos dão testemunho da lentidão e da dificuldade dos Doze em compreender Jesus (cf. Mc 8,14-22; 8,31-33; 10,32-45); um dos Doze o traiu, os outros apóstolos não lhe foram solidários e até fugiram (cf. Mt 26,36-56), seu líder negou Jesus (cf. Mc 14,66-72). Tudo isto é historicamente irrefutável. O moral do grupo após a sexta-feira era o pior possível; ninguém esperava uma ressurreição de Jesus (cf. Lc 24,21-24). Ora, logo após, os apóstolos mudaram completamente de atitude, de ânimo, de vida! Passaram da depressão ao ânimo, da estupefação ao testemunho, da dispersão à comunhão em torno dos Doze. Resta a pergunta insistente: o que houve? Uma fraude poderia causar tal transformação? Certamente, não! Então, uma alucinação?

2. Os relatos dos evangelhos também não dão margem a uma teoria de alucinação.

Note-se que as manifestações do Ressuscitado dão-se no cotidiano, quando os apóstolos não esperavam e não estavam em estado de excitação místico-religiosa. Também é importante o fato de não reconhecerem logo a Jesus (cf. Lc 24,16; Jo 21,4) e mais importante ainda é a surpreendente informação que muitos duvidaram (cf. Mt 28,16; Mc 16,9-14; Jo 20,24-29). É impressionante a insistência dessa dúvida!

3. Há discrepâncias nos relatos evangélicos.

A Igreja não as harmonizou, num claríssimo sinal de respeito às fontes. Não são lendas ou frutos de imaginações excitadas! Também apontam para a historicidade (a) o fato de Jesus confiar o anúncio da Ressurreição a mulheres, (b) o fato de não ser reconhecido imediatamente e (c) o fato da incredulidade dos discípulos. Nada disso apareceria num texto fraudulento, pois deporia contra a veracidade da Ressurreição!

4. É digno de nota também que o túmulo vazio nunca foi contestado pelos judeus ou pelos romanos.

Se é exato que tal fato não garante nem prova o feto da Ressurreição, também é verdadeiro que deixa uma pergunta não respondida: onde está o corpo de Jesus? O que lhe aconteceu? Os discípulos respondem, decididos: “Ele ressuscitou! Nós o vimos!” Note-se que os cristãos nunca usaram o sepulcro vazio como argumento ou prova em favor da Ressurreição; foram os encontros com o Ressuscitado que primeiramente fundamentaram a fé na ressurreição. O sepulcro vazio apenas confirmou o fato! Ele fecha a porta para interpretar as manifestações como alucinações ou para uma interpretação “espiritualizada” da Ressurreição de Jesus!

5. É impressionante também a concordância da Ressurreição com a fé de Israel.

Se é verdade que ninguém em Israel esperava uma ressurreição antes do fim dos tempos – e neste sentido a Ressurreição de Jesus é algo absolutamente original e revolucionário -, não é menos verdadeiro que o Senhor Deus é sempre apresentado como o Deus da vida, da justiça, do poder e da fidelidade, de modo que conheciam o Deus de Israel, revelado nos textos sagrados, estavam preparados para compreender a Ressurreição de Jesus como ação culminante desse Deus! Aquele que foi obediente e fiel até a morte, não foi abandonado pelo Senhor Deus que, “segundo as Escrituras” o ressuscitou em sua fidelidade!

6. É interessante também o quanto a Ressurreição de Jesus dá uma chave potente e coerente para tudo quanto aconteceu na história de Israel e do próprio Jesus de Nazaré, sugerindo realmente a veracidade de tal evento!

A própria fé cristã somente pode explicar-se e articular-se à luz da Ressurreição: sem ela todo o edifício teológico cai e o próprio Antigo Testamento fica sem um final e sem sentido pleno…



7. Não menos digno de nota é o testemunho dos discípulos: eles nunca falaram de aparições interiores nem de um cadáver reanimado; falaram de um Jesus totalmente transformado e glorioso!

Ora, crer neste testemunho é aceitar a palavra de pessoas que se encontraram com Jesus ressuscitado através de um tipo especial de experiência exclusiva deles. Desde Orígenes e dos Padres da Igreja, chama-se atenção para a coerência dos apóstolos e sua vida heroica, exatamente por causa de sua experiência com o Ressuscitado.
Pode-se concluir esta apresentação com o raciocínio lúcido de São Tomás de Aquino: Nenhuma razão particular, em si mesma, pode provar a Ressurreição: os argumentos individuais tomados em si mesmos não são prova suficiente da Ressurreição de Cristo, porém tomados em conjunto, de um modo cumulativo, manifestam-na de um modo perfeito. A Ressurreição, por um lado, exige sempre o salto da fé; por outro lado, uma fé esclarecida e racionalmente justificável. Por quanto sejam louváveis, os seguintes versos fideístas não são suficientes para uma adesão humanamente responsável: “Vive, vive Jesus Cristo vive hoje:/ Passeia comigo e me fala/ Ao largo do estreito caminho da vida./ Vive, vive para nos salvar;/ tu me perguntas como sei que vive…/ Vive dentro do meu coração!” Se Jesus vive simplesmente porque vive no meu coração, então eu o ressuscito e não ele a mim; eu o salvo da morte e do esquecimento do nada e não ele a mim!

É muito mais lúcida, humana, responsável, madura e católica a observação de Tomás de Aquino: Não devemos crer se não tivermos razões para crer!

Dom Henrique Soares da Costa





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sábado, 23 de dezembro de 2023

O Verbo assumiu nossa natureza no seio de Maria


Santo Atanásio, bispo e doutor da Igreja, séc. IV

O Verbo de Deus veio em auxílio da descendência de Abraão, como diz o Apóstolo. Por isso devia fazer-se em tudo semelhante aos irmãos (Hb 2,16-17) e assumir um corpo semelhante ao nosso. Eis por que Maria está verdadeiramente presente neste mistério; foi dela que o Verbo assumiu, como próprio, aquele corpo que havia de oferecer por nós. A Sagrada Escritura, recordando este nascimento, diz: Envolveu-o em panos (Lc 2,7); proclama felizes os seios que o amamentaram e fala também do sacrifício oferecido pelo nascimento deste Primogênito. O anjo Gabriel, com prudência e sabedoria, já o anunciaram a Maria; não lhe disse simplesmente: aquele que nascer em ti, para não se julgar que se tratava de um corpo extrínseco nela introduzido; mas: de ti (cf. Lc 1, 35Vulg.), para se acreditar que o fruto desta concepção procedia realmente de Maria.

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Assim foi que o Verbo, recebendo nossa natureza humana e oferecendo-a em sacrifício, assumiu-a em sua totalidade, para nos revestir depois de sua natureza divina, segundo as palavras do Apóstolo: É preciso que este ser corruptível se vista de incorruptibilidade; é preciso que este ser mortal se vista de imortalidade (1Cor 15,53).

Estas coisas não se realizaram de maneira fictícia, como julgam alguns, o que é inadmissível! Nosso Salvador fez-se verdadeiro homem, alcançando assim a salvação do homem na sua totalidade. Nossa salvação não é absolutamente algo de fictício, nem limitado só ao corpo; mas realmente a salvação do homem todo, corpo e alma, foi realizada pelo Verbo de Deus.

A natureza que ele recebeu de Maria era uma natureza humana, segundo as divinas Escrituras, e o corpo do Senhor era um corpo verdadeiro. Digo verdadeiro, porque era um corpo idêntico ao nosso. Maria é portanto nossa irmã, pois todos somos descendentes de Adão.

As palavras de João: O Verbo se fez carne (Jo 1,14) têm o mesmo sentido que se pode atribuir a uma expressão semelhante de Paulo: O Cristo fez-se maldição por nós (cf. Gl 3,13). Pois da intima e estreita união com o Verbo, resultou para o corpo humano em engrandecimento sem par: de mortal tornou-se imortal; sendo animal, tornou-se espiritual; terreno, transpôs as portas do céu.

Contudo, mesmo tendo o Verbo tomado um corpo no seio da Maria, a Trindade continua sendo a mesma Trindade, sem aumento nem diminuição. É sempre perfeita, e na Trindade reconhecemos uma só Divindade; assim, a Igreja proclama um único Deus no Pai e no Verbo.

Prof. Felipe Aquino



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