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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

São Francisco de Assis e a inclusão das pessoas com deficiência

Restaurar a Igreja pelo caminho do acolhimento

A história da Igreja é marcada por santos que viveram o Evangelho de maneira concreta, especialmente no cuidado com os mais frágeis. Entre eles, destaca-se São Francisco de Assis, reconhecido por sua profunda compaixão pelos marginalizados, doentes e vulneráveis.

Sua vida continua sendo um grande chamado para que a Igreja seja, de fato, uma casa de portas abertas, onde todos tenham dignidade, espaço e pertença. Ao refletirmos sobre a inclusão das pessoas com deficiência na comunidade cristã, o exemplo de São Francisco se torna ainda mais atual. Ele nos ensina que a fé não se limita a palavras ou discursos, mas se revela principalmente na forma como acolhemos aqueles que o mundo costuma rejeitar.

Cigoli, Public domain, via Wikimedia Commons

O abraço que mudou tudo: Francisco e o leproso
Um dos momentos mais decisivos da conversão de Francisco foi o encontro com um leproso. Na sociedade medieval, os leprosos eram evitados, considerados impuros e excluídos do convívio social. Francisco, porém, fez o contrário do esperado: desceu do cavalo, aproximou-se, beijou o leproso e lhe ofereceu ajuda. Esse gesto simples foi profundamente evangélico.

Francisco compreendeu que, ao tocar o ferido, estava tocando o próprio Cristo. Esse episódio nos ensina que a inclusão começa quando vencemos o medo e o preconceito. Muitas vezes, não excluímos por maldade, mas por desconhecimento ou insegurança. Francisco nos mostra que o amor cristão sempre encontra um caminho.

São Francisco não apenas ajudava os pobres e doentes de longe. Ele decidiu viver entre eles. Sua escolha pela pobreza não era apenas um estilo de vida, mas uma forma de dizer ao mundo que os últimos têm valor. Ele chamava os mais simples de “irmãos” e “irmãs”, porque acreditava que todos pertencem à mesma família de Deus. Esse olhar fraterno é fundamental para a inclusão: a pessoa com deficiência não deve ser vista como alguém “diferente”, mas como irmão e irmã dentro da comunidade.

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Uma Igreja sem hierarquias de valor
Diferente de muitas estruturas sociais de sua época, a ordem fundada por São Francisco acolhia pessoas de diversas origens, sem hierarquias baseadas em status, aparência ou capacidade física. Isso é uma lição importante para a Igreja de hoje: ninguém deve ser visto como “menos importante” por causa de uma deficiência. A pessoa com deficiência não é um “caso especial”. Ela é um membro da Igreja.

Outro aspecto essencial da espiritualidade franciscana é a ternura. Francisco não evangelizava com dureza, mas com proximidade, delicadeza e compaixão. Ele entendia que o amor de Deus precisa ser comunicado com gestos simples e acessíveis. Isso tem tudo a ver com inclusão pastoral: muitas pessoas com deficiência, ou suas famílias, precisam antes de tudo de acolhida humana, de escuta e respeito. Uma Igreja acessível começa com um coração aberto.

O próprio Francisco conheceu a fragilidade
Nos últimos anos de sua vida, São Francisco sofreu diversas doenças, incluindo uma grave enfermidade nos olhos que o deixou quase cego. Ele passou a experimentar, no próprio corpo, aquilo que muitas pessoas vivem: limitações, dependência e sofrimento e essa experiência aumentou ainda mais sua empatia. Francisco nos recorda que a fragilidade não diminui a dignidade humana. Pelo contrário: pode se tornar um lugar de encontro profundo com Deus.

Mesmo doente e quase cego, Francisco compôs o famoso Cântico das Criaturas, louvando a Deus pela vida, pela natureza e pela beleza da criação. Isso mostra que a pessoa não perde sua missão por causa da deficiência ou da limitação. A inclusão na Igreja é também isso: ajudar cada pessoa a perceber que sua vida continua tendo sentido, valor e vocação.

Incluir é restaurar a Igreja
Durante uma oração, Francisco ouviu o chamado: “Francisco, restaura a minha Igreja”. Ele entendeu que essa restauração não era apenas física, mas espiritual. Era um retorno ao Evangelho vivido com simplicidade e misericórdia. Hoje, restaurar a Igreja significa também construir comunidades onde as pessoas com deficiência tenham acesso pleno à vida cristã.

Uma Igreja inclusiva não é uma Igreja “moderna”. É uma Igreja fiel ao Evangelho.
O Papa Francisco, inspirado no santo de Assis, denuncia frequentemente a “cultura do descarte”, que rejeita os frágeis e valoriza apenas os produtivos. A inclusão das pessoas com deficiência é um sinal profético contra essa lógica. Quando a comunidade cristã acolhe os vulneráveis, ela proclama que cada vida tem valor, porque cada pessoa é imagem de Deus.

São Francisco de Assis nos ensina que a verdadeira fé se manifesta no amor concreto. Ele abraçou os excluídos, caminhou com os doentes e reconheceu Cristo nos feridos.

Sua vida continua sendo um chamado para a Igreja de hoje: não basta dizer que acolhemos, é preciso incluir, porque restaurar a Igreja é também restaurar a dignidade dos que foram esquecidos.

São Francisco de Assis, rogai por nós!

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Onde está o anjo da guarda na hora da tragédia?

Onde estava o meu anjo da guarda? A pergunta de quem sofre uma tragédia

Chovia fino na estrada quando o caminhão invadiu a pista. Ela se lembra do clarão dos faróis, do grito do metal e, depois, de um silêncio que durou horas. Acordou num corredor de hospital, com o braço imobilizado e um médico que olhava para a prancheta como quem procura ali a coragem que lhe faltava. A filha de sete anos, que dormia no banco de trás, abraçada a um coelho de pano, não tinha resistido. O coelho sobreviveu. Naquela madrugada, sozinha diante de uma parede branca que parecia não terminar nunca, voltou-lhe aos lábios a oração que a mãe lhe ensinara e que ela repetira com a menina todas as noites à beira da cama: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…”. A oração veio com a naturalidade das coisas aprendidas na infância. E, colada a ela, a pergunta que lhe atravessou a alma como uma lâmina: onde estava o anjo da guarda da minha filha? Onde estava o meu?

Workshop of Domenichino, Public domain, via Wikimedia Commons

Há duas respostas fáceis para essa pergunta, ambas cruéis. A primeira é a do cético, que sorri com uma falsa pena e explica que anjos são histórias para “fazer as crianças dormirem”. Tem a vantagem de ser simples e a desvantagem de deixar aquela mãe sozinha no corredor para sempre. A segunda é a do sentimental, que imagina o anjo como uma espécie de airbag celeste, um dispositivo de segurança instalado por Deus para amortecer os choques da vida. Essa é mais doce e, ainda assim, a mais perigosa, pois, no dia em que o airbag não abrir, a fé explodirá junto com o carro.
O que a Igreja responde: o anjo estava ali

A resposta da Igreja é muito mais simples e sincera: o anjo estava ali. Sim, simplesmente isso: o anjo estava ali!

Estava ao lado da menina até o último instante, e estava ao lado daquela mãe no corredor do hospital, fazendo exatamente aquilo para que Deus o enviou. A Sagrada Escritura chama os anjos de espíritos servidores, enviados a serviço daqueles que devem herdar a salvação (Hb 1,14). Aí está a medida de toda a sua obra. O anjo da guarda é ministro da Providência divina em vista da vida eterna e cuida do bem temporal do homem na medida em que estes servem a esse fim. O mundo costuma julgar o anjo pelo que acontece ao corpo, mas este é um juízo equivocado, visto que seu real juízo se estabelece pelo que acontece à alma. Quando Deus permite uma tragédia no tempo, o anjo concentra seu cuidado no campo onde a salvação se decide: a inteligência ferida e o coração dilacerado de quem sofre, onde as virtudes teologais da fé, da esperança da caridade precisam permanecer de pé depois que todo o resto caiu.

É sobre essa obra silenciosa que as páginas seguintes procuram trazer alguma luz.
1. Guardião do caminho para Deus: Para que Deus enviou o anjo da guarda? O que é a “guarda dos anjos” segundo Santo Tomás de Aquino?

Para saber onde o anjo estava, é preciso saber para que foi enviado. Santo Tomás explica que Deus executa sua providência por meio de causas intermediárias; e como a natureza angélica está entre Deus e o homem, cabe aos anjos executar a providência divina a respeito da salvação humana, ajudando o homem a tender ao seu fim e livrando-o daquilo que impede o seu avanço. A essa execução, conclui ele, chama-se “guarda dos anjos”1. Deus não precisa deles, assim como um pai não precisa que o filho pequeno o ajude a carregar as compras. E, no entanto, entrega-lhe a sacola mais leve, porque o amor gosta de associar. Santo Tomás ensina que Deus age assim por sabedoria, para conceder aos anjos a dignidade de conduzir as criaturas de volta ao Criador2.

Todo ser humano tem um anjo da guarda?
Na Suma, São Tomás explica por que o homem precisa dessa condução. Somos semelhantes a viajantes com mapas surrados: nosso conhecimento vacila e nossos afetos oscilam ao sabor das circunstâncias, e cada encruzilhada da vida moral nos encontra um pouco mais cansados. Convém, por isso, que sejamos guiados por espíritos já firmados para sempre no bem, que regulem e movam nossa marcha em direção a esse mesmo bem3. A ajuda é oferecida a todos, desde o nascimento, e Deus não a economiza nem com os que a recusarão. Santo Tomás chega a afirmar que nem mesmo aquele que se perderá fica privado dela: assim como não lhe falta a luz interior da razão, também não lhe falta esse socorro exterior que Deus concedeu a toda natureza humana4. O anjo é uma oferta de salvação que caminha ao lado do homem a vida inteira, batendo à porta sem arrombá-la. O Catecismo subscreve a mesma doutrina, recordando as palavras de São Basílio: ao lado de cada fiel está um anjo, como protetor e pastor, para conduzi-lo à vida5.

O anjo da guarda protege o corpo ou a alma?
O cuidado do corpo entra nessa missão, mas em seu devido lugar. A criança pequena, ainda incapaz de merecer ou de pecar, tem um anjo que a protege dos males corporais na medida em que estes poderiam prejudicar a sua alma6. Quando o anjo da guarda segura a mão da criança à beira da escada, está pensando em algo muito maior do que os degraus. Mesmo quando ampara o corpo, nosso amigo celeste tem os olhos postos na eternidade.

2. A providência que permite: Por que Deus permite a tragédia se existe o anjo da guarda?
Se o anjo executa a ordem da Divina Providência, ele quer o que Deus quer e permite o que Deus permite. A pergunta pela ausência do anjo nos leva, então, ao mistério da própria providência, que alcança cada criatura naquilo que ela tem de mais singular7 e, ainda assim, deixa acontecer o acidente e os infortúnios da vida. Vista daqui de baixo, a história se parece com um bordado olhado pelo avesso (para usar o exemplo de São Padre Pio): fios cortados e cores que não combinam. O mesmo artigo de Santo Tomás oferece a chave para imaginar o lado direito do bordado: quem tem o cuidado de um todo permite certas falhas nas partes, para não impedir o bem do conjunto8. Garrigou-Lagrange acrescenta que Deus só quer a dor e o mal físico de modo acidental em vista de um bem mais alto9. Qual seja esse bem, São Paulo o diz no trecho de sua carta mais citado nos tratados da Providência: “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).

O anjo da guarda e a tribulação permitida por Deus
É sob essa luz que se deve ler o texto de Santo Tomás que responde mais diretamente a nossa pergunta. O anjo da guarda, diz ele, jamais abandona inteiramente o homem. Em algo, porém, o deixa: não impede que seja submetido a alguma tribulação, nem mesmo que caia em pecado, segundo a ordem dos juízos divinos10. A tribulação permitida acontece dentro da própria guarda. O anjo que não desviou o golpe continua ao lado de quem o recebeu, com a mesma solicitude de antes, e talvez com mais trabalho do que antes.

Jó e os caminhos da providência
O livro de Jó é o grande comentário bíblico a essa doutrina. O leitor sabe, desde o prólogo, que Deus permitiu a Satanás provar o justo; Jó ignora essa razão até o fim, e é justamente por ignorá-la que sua fidelidade vale tanto. Garrigou-Lagrange vê, neste relato, as vias ocultas da providência, reveladas ao leitor no início do livro e profundamente misteriosas para o aflito. Seguindo o comentário de Santo Tomás, observa que o erro dos amigos de Jó foi esquecer a vida futura e exigir que toda justiça se cumprisse nesta vida11. Quando o próprio Senhor fala, responde às perguntas de Jó com perguntas ainda maiores, e Jó se cala em paz. Chesterton escreveu, a propósito desse livro, que os enigmas de Deus satisfazem mais do que as soluções dos homens12. A lição final é que Deus prova os seus como o ouro na fornalha. Se uma aflição concreta é prova ou castigo, e em que medida é uma coisa e outra, somente Ele o sabe.

A providência na história de Pedro e Tiago
O capítulo 12 dos Atos dos Apóstolos coloca lado a lado duas cenas que parecem se contradizer. Herodes manda matar Tiago à espada; poucos versículos depois, um anjo desperta Pedro na prisão, faz caírem as correntes e o conduz pelas ruas adormecidas de Jerusalém. A mesma Igreja rezava pelos dois, o mesmo Senhor governava os dois destinos. São Pedro foi liberto para continuar a missão; São Tiago, no entanto, foi libertado de outro modo, mais definitivo, e entrou primeiro na glória. Para os olhos da terra, um foi salvo e o outro perdido. Para os olhos do céu, os dois chegaram exatamente aonde deviam, e nenhum deles ficou um só instante fora do cuidado de Deus e de seus anjos.

A promessa do salmo 90
O Salmo 90 promete que Deus dará ordens a seus anjos para guardarem o justo em todos os seus caminhos. Há uma ironia terrível no fato de que o primeiro a transformar esse versículo em garantia de “proteção espetacular e irrestrita” foi o demônio, no deserto (Mt 4,6). Nosso Senhor recusou a leitura diabólica. As promessas do Salmo, cheias de realismo espiritual, fazem entrever a vida futura, e o próprio Salmo termina apontando para ela: “Estarei com ele na tribulação, eu o livrarei e o glorificarei, e lhe mostrarei a minha salvação” (Sl 90,15-16). A promessa inclui a tribulação, e o que Deus jura é atravessá-la junto com o justo.

3. Como o anjo toca a alma
Para compreender o que o anjo faz no meio da dor, é preciso saber de que modo um espírito puro pode tocar uma criatura feita de barro. Santo Tomás dedica a isso uma questão inteira da Suma, com a paciência de um relojoeiro que desmonta o mecanismo peça por peça, e suas distinções iluminam o nosso tema com uma precisão indispensável.

Como o anjo ilumina a inteligência
O primeiro campo da ação angélica é a inteligência. O anjo a ilumina de dois modos: 1) fortalecendo a sua luz: como um corpo mais quente, aquece o que dele se aproxima, e 2) propondo-lhe a verdade sob imagens sensíveis, adaptadas a uma inteligência que conhece a partir dos sentidos13. É um mestre que se abaixa até a altura do aluno. Nas questões sobre a verdade, o Doutor Angélico precisa o alcance dessa ação: o anjo não pode infundir a luz intelectual, como Deus faz, e pode, contudo, fortalecer a luz infundida, para que o homem veja com mais perfeição14. E observa, quase de passagem, que o homem nem sempre percebe quando está sendo iluminado por um anjo!15. É uma das frases mais humildes e mais belas da angelologia. Passamos a vida inteira recebendo bons pensamentos e assinando-os como nossos.

Como o anjo age sobre a imaginação e a memória
Como a inteligência humana se apoia na imaginação, o anjo pode agir também sobre ela, movendo as disposições corporais que a sustentam e fazendo surgir diante da mente uma imagem ou outra16. Trabalha com o material que a própria vida depositou no homem: uma lembrança, uma palavra ouvida na catequese, o rosto de alguém que se ama, um conselho do diretor espiritual e assim por diante.

O anjo pode mover a vontade? O santuário que só Deus alcança
A vontade, porém, guarda um santuário onde só Deus entra. Somente Ele pode movê-la a partir de dentro, porque só Ele a criou e a inclina ao bem. O anjo fica à porta desse santuário: ele move a vontade de modo indireto, 1) apresentando à inteligência um bem sob o aspecto que o torna desejável, ou 2) despertando as paixões sensíveis; e mesmo assim a vontade permanece sempre livre para consentir ou resistir17. Bonino oferece um exemplo simples: assim como um demônio pode acender a concupiscência, um anjo bom pode suscitar um movimento de coragem18.

Por que quase nunca percebemos a ação do anjo da guarda no sofrimento
Daqui brotam duas consequências para quem sofre. A primeira é que a ação do anjo na tribulação é quase sempre discreta, e por isso quase sempre esquecida. Garrigou-Lagrange ensina que a intervenção do anjo da guarda que, por ordem de Deus, sugere um bom pensamento, no sono ou na vigília, pertence ao curso ordinário da providência e é frequente na vida dos que se abandonam a Deus19. A segunda é que essa ação alcança precisamente as faculdades que a tragédia fere. O choque de uma perda enche a imaginação de cenas que voltam sem cessar, turva o juízo e revolve as paixões como um vendaval. É nesse campo devastado que o anjo trabalha: acalmando, sugerindo, trazendo à memória uma palavra do Evangelho, protegendo como quem protege com as mãos em concha a pequena chama que ainda resta acesa.

4. O anjo e as virtudes teologais na provação: Como o anjo da guarda sustenta a fé, a esperança e a caridade na provação

A fé, a esperança e a caridade são obra exclusiva de Deus na alma. O assentimento da fé procede de Deus, que move interiormente pela graça20, e a caridade é derramada nos corações “pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Bonino resume o princípio do seguinte modo: o dom da graça está estritamente reservado a Deus, o único que pode agir no interior da vontade; e, ainda assim, convém que a instrução espiritual do homem passe pela iluminação dos anjos21. O anjo é, portanto, o jardineiro de uma planta que ele mesmo não semeou. Prepara o terreno, afasta as pragas, rega nas horas de seca e se alegra com cada flor que Deus faz brotar. Na tragédia, cada uma das três virtudes é atacada de um modo próprio, e o anjo acorre a cada uma segundo a sua natureza.
A fé: a luz que não se apaga

Contra a fé, a tragédia levanta a objeção mais antiga do mundo: se Deus fosse bom e poderoso, isso não teria acontecido. É curioso que a dor, que deveria ser o argumento mais forte contra Deus, tenha levado tantos homens a encontrá-lo: os santos são aqueles que sofreram e continuaram crendo; ou, melhor: que creram ainda mais por isso! O primeiro socorro do anjo chega à inteligência. Ele repropõe à alma as verdades que ela já conhece e que a dor encobriu como a neblina encobre uma paisagem que continua lá: Deus é Pai, nada escapa à Sua providência, a morte não tem a última palavra etc. E, segundo o princípio enunciado nas questões sobre a verdade, fortalece a luz que a alma já recebeu, para que continue a ver quando tudo escurece. Na véspera da Paixão, Cristo rezou para que a fé de Pedro não desfalecesse, na hora em que Satanás pedira para peneirá-lo como trigo (Lc 22,31- 32). Garrigou-Lagrange aproxima essa cena do prólogo de Jó e comenta que são melhores os que assim são peneirados22. Junto de cada fiel provado, o anjo é o primeiro servidor dessa oração de Cristo.
A esperança: o horizonte da eternidade

O perigo mais agudo da tragédia é o desespero, que encolhe o universo inteiro até o tamanho de um quarto de hospital. A esperança tem por objeto a bem-aventurança eterna e o auxílio divino para alcançá-la23. Poderíamos dizer que ela é a “virtude das janelas”. Como o anjo pode mover a vontade apresentando-lhe um bem sob o aspecto que o torna amável, ele é capaz de reabrir essas janelas e de recordar à alma que as almas dos justos estão nas mãos de Deus (Sb 3,1). Pode ainda suscitar, no plano das paixões, aquele pequeno movimento de coragem que permite dar o passo seguinte. Os amigos de Jó erraram por esquecer a vida futura; o anjo trabalha no sentido oposto e mantém a eternidade diante dos olhos de quem sofre, como quem segura uma lanterna na direção da saída.

Na escuridão da noite, vemos muito mais longe do que à luz do dia, porque é preciso que o sol se esconda para que as estrelas apareçam. Enquanto o dia nos mostra o bairro, a noite nos mostra o universo. Do mesmo modo, quando a providência apaga numa vida o brilho das coisas da terra, as realidades espirituais começam a mostrar-se em toda a sua grandeza24. Na noite da provação, o anjo ajuda a alma a erguer os olhos para as estrelas.
A caridade: permanecer unido a Deus

A caridade é atacada pela revolta, como no caso da mulher de Jó que lhe ordenou: “amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2,9). Quando a tragédia nasce de um crime, soma-se a ela a tentação do ódio contra o culpado. Aqui aparece outra função do anjo: combater os demônios, que exploram justamente as horas de fraqueza, como ladrões que preferem as casas com a porta arrombada25. O ato de caridade brota da vontade movida pela graça, e o anjo o serve afastando as sugestões do inimigo e apresentando à alma os motivos do amor: o Crucificado, a vontade de Deus que tudo ordena ao bem, a misericórdia que ela mesma já recebeu tantas vezes etc.

O anjo sustenta a caridade também pela oração. O arcanjo Rafael revela a Tobit e a Tobias que apresentava ao Senhor a memória das suas orações (Tb 12,12), e o Apocalipse mostra a fumaça do incenso subindo com as orações dos santos da mão do anjo diante de Deus (Ap 8,4). Santo Tomás explica que nossas orações chegam a Deus pelo ministério dos anjos que intercedem por nós26. Há algo de profundamente comovente nisso. Quando o fiel ferido já não consegue rezar, quando as palavras se desfazem na garganta e só resta o choro, há alguém que recolhe essas lágrimas e as leva ao trono de Deus como se fosse um salmo. O ato perfeito da caridade na provação é a palavra de Jó: “o Senhor deu, o Senhor tirou, bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,21). Garrigou-Lagrange diz que Deus, quando permite a perseguição exterior, não permite que o justo perca o ânimo: sustenta-o invisivelmente27. Na ordem da execução, esse sustento invisível passa muitas vezes pelas mãos do anjo.

5. O anjo do Getsêmani: como o anjo consola quem sofre
Toda essa doutrina encontra a sua imagem perfeita num jardim das oliveiras. O Filho de Deus, que sustenta o universo com a sua palavra, está prostrado na terra, com o suor caindo-lhe como gotas de sangue. Pede ao Pai que afaste o cálice, se for possível, e entrega-se à Sua vontade. São Lucas acrescenta um detalhe que só ele registra: apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava; e, entrando em agonia, orava com mais insistência (Lc 22,43-44).

Por que o anjo não afastou o cálice de Jesus
O cálice permaneceu. O anjo veio para fortalecer Aquele que ia bebê-lo. Há poucos paradoxos tão vertiginosos em toda a Escritura: o Criador dos anjos consolado por um anjo, o Senhor dos exércitos celestes amparado por um dos seus soldados. E o fruto dessa consolação é surpreendente. Depois dela, Jesus reza com mais intensidade, levanta-se e caminha ao encontro de quem o entrega. Eis a forma da ajuda angélica na hora da dor: ela sustenta a fidelidade e acompanha o homem através da cruz, até o outro lado.

Poucas horas depois, quando São Pedro desembainha a espada, o Senhor lhe diz que poderia pedir ao Pai, e Ele lhe enviaria mais de doze legiões de anjos; mas então como se cumpririam as Escrituras? (Mt 26,53-54). Doze legiões esperavam uma palavra: ela apenas não foi dita. O poder de impedir estava ali, inteiro, e foi inteiramente subordinado à obra da salvação. Santo Tomás ensina que Cristo não teve anjo da guarda, porque já gozava da visão de Deus e era superior aos anjos28. Os anjos que o serviram no deserto e no Getsêmani exerceram um ministério junto à sua humanidade sofredora. Por analogia, o fiel que sofre unido a Cristo pode contar, da parte do seu anjo, com um ministério semelhante.

Como reconhecer a consolação do anjo em meio à dor
A cena ensina também uma pedagogia para quem acompanha os que sofrem. A consolação do anjo raramente tem a forma que o aflito imagina pedir. Chega como força para continuar rezando, como capacidade de dizer a vontade de Deus em lugar da própria, como uma paz que se instala na parte mais alta da alma enquanto a sensibilidade ainda sangra. É possível chorar e estar em paz ao mesmo tempo; os santos o fizeram, e o próprio Nosso Senhor o fez naquela noite. Garrigou-Lagrange descreve exatamente essa paz: em meio aos acontecimentos penosos, a alma permanece serena ao menos em sua parte superior, porque está intimamente persuadida de que Deus a conduz29.

6. O anjo sofre conosco? O que ensina Santo Tomás
Resta uma pergunta que brota do afeto, e talvez seja a mais humana de todas: o anjo chora conosco? Santo Tomás responde que os anjos não se entristecem com os males daqueles que guardam. Nada acontece no mundo contra a vontade dos anjos e dos bem-aventurados, porque a vontade deles adere inteiramente à ordem da justiça divina, e nada acontece no mundo senão aquilo que essa justiça faz ou permite30.
Vontade antecedente e consequente: a paz do anjo diante da dor

À primeira leitura, a resposta pode soar fria. Mas basta olhá-la um pouco mais de perto para encontrar seu calor. Bonino ilumina a questão com a distinção tomista entre vontade antecedente e vontade consequente31, que Santo Tomás formula ao tratar da vontade divina32. Considerado em si mesmo, o bem do protegido é querido pelo anjo com todo o ardor da caridade. Na vontade consequente, que é a vontade real e última, ele quer o que Deus quer ou permite, porque contempla o desígnio que o homem ainda não pode ver. Sua paz é a de quem já leu o último capítulo do livro e sabe como a história termina.

E essa paz é um presente para quem sofre. Quem atravessa uma tragédia precisa de muitas coisas, e uma das mais raras é alguém a seu lado que não se aflija junto. O salva-vidas que entra em pânico com o náufrago afunda com ele, enquanto que aquele que mantém a calma é o único que pode trazê-lo com segurança à praia. Garrigou-Lagrange afirma que as almas provadas verão um dia que os anjos encontravam motivo de alegria naquilo que, por vezes, as deixou profundamente desoladas33. O anjo já contempla o bem que Deus está tirando do mal, e sua serenidade é uma espécie de promessa silenciosa: um dia você também verá.

O anjo da guarda na hora da morte: o que acontece depois
Quando a tragédia inclui a morte, a fé da Igreja estende o cuidado angélico até o limiar da eternidade. O pobre Lázaro, que viveu à porta do rico sem que ninguém o notasse, teve na morte um cortejo que nenhum rei conheceu: foi levado pelos anjos ao seio de Abraão (Lc 16,22). A liturgia das exéquias pede que os anjos conduzam ao paraíso aquele que partiu. Santo Tomás ensina que, depois da morte, cessa o ofício propriamente de guarda, porque o homem já não é peregrino; ainda assim, o anjo permanece unido a ele de outro modo, como companheiro na glória. A morte, que aos olhos da terra parece o fracasso do guardião, é o momento em que ele entrega a sua obra concluída. Uma morte violenta ou repentina chega, assim, ao seu termo acompanhada pelo mesmo ministério que acompanhou a vida inteira.

O anjo da guarda no corredor do hospital: onde ele estava, afinal
Voltemos àquela mãe sentada diante da parede branca. Se alguém pudesse abrir-lhe os olhos para o invisível, como Eliseu abriu os olhos do seu servo diante do exército que cercava a cidade, ela veria que nunca esteve sozinha. O anjo da guarda da filha acompanhou a menina até o último instante e a conduziu a um lugar onde nenhum caminhão poderá jamais feri-la outra vez. O seu próprio anjo da guarda estava ali, junto dela, travando a batalha decisiva no único campo onde ela ainda podia ser vencida ou perdida: na sua inteligência, para que a fé não se apagasse; no seu coração, para que a esperança não morresse e a dor não converte a caridade em revolta. A oração que ela rezou quase sem voz, “Santo Anjo do Senhor…”, subiu a Deus pelas mãos dele, mais bela do que qualquer oração que ela tenha rezado em seus dias felizes.

É isso que a teologia católica pode dizer a quem pergunta onde estava o seu anjo da guarda: Ele estava exatamente onde Deus o colocou, cumprindo a missão que Deus lhe deu: conduzir você à vida eterna. Às vezes, afasta o perigo, e nós o chamamos de sorte. Outras vezes, segundo a ordem dos juízos divinos, deixa que a tribulação chegue e permanece ao seu lado, dentro dela, e nós o chamamos de ausente. Em nenhum dos casos, contudo, abandona o seu protegido. O anjo da guarda é o amigo mais fiel e o mais esquecido que um homem pode ter, e só na eternidade saberemos quantas vezes nos salvou sem que percebêssemos.

Como rezar ao anjo da guarda na hora da provação: seis petições
Por isso, convém ensinar o fiel a pedir ao anjo da guarda, na hora da provação, aquilo que corresponde à sua missão e ao modo como ele age na alma: que 1) fortaleça a luz da sua inteligência, para que a fé continue a ver quando tudo escurece; que 2) proponha, na sua imaginação ferida, imagens santas no lugar das cenas que o atormentam, uma palavra do Evangelho, o rosto do Crucificado, a lembrança dos que já estão nas mãos de Deus; que 3) apresente à sua vontade o bem eterno sob o aspecto que o torna amável, para que a esperança volte a abrir as janelas da alma; que 4) desperte em suas paixões aquele movimento de coragem que permite dar o passo seguinte; que 5) afaste as sugestões do inimigo, para que a dor não apodreça em revolta nem em ódio; e que 6) leve ao trono de Deus a oração que ele já não consegue formular. Pedir isso é pedir ao anjo da guarda exatamente aquilo para que Deus o enviou, e poucas orações coincidem tão perfeitamente com a vontade divina. Na noite da tragédia, rezar assim é estender a mão no escuro com a confiança de uma criança, certa de que há alguém ali para segurá-la.

Ou, se for difícil demais lembrar-se dessas seis petições, basta-nos repetir, como sempre, aquelas doces palavras da infância: “Santo Anjo do Senhor…”!

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O verdadeiro motivo por trás dos vícios



Por trás dos vícios, a compensação

Toda fuga da realidade funciona, do ponto de vista psicológico, como um mecanismo de compensação. O ser humano busca preencher ou anestesiar uma dor imediata por meio de um prazer compensatório, assim como fazemos ao oferecer um doce a uma criança após uma injeção. Esse comportamento não se restringe à infância, os adultos também recorrem a ele diante de frustrações, angústias e problemas acumulados.

A ilusão dos vícios e a fuga da realidade
Diante da necessidade de desabafar e aliviar a pressão interna, existem basicamente dois caminhos possíveis: o positivo e o negativo. O primeiro caminho, o positivo, conhecido na psicologia como sublimação, trata-se do processo de superar uma miséria ou sofrimento humano elevando a mente a algo superior, como a fé, a oração e a leitura da Palavra de Deus.

Por outro lado, quando o indivíduo escolhe a compensação negativa, ele entra por atalhos destrutivos. É nesse cenário que a pessoa se rende ao alcoolismo, às drogas, à prostituição ou até mesmo ao crime, agravando ainda mais a sua situação original.

O sofrimento inevitável
Nesta vida, o sofrimento e as dificuldades são realidades universais que atingem a todos, independentemente de crença ou religião. Não adianta tentar correr ou se esconder, cada ser humano possui a sua própria cruz para carregar ao longo da jornada.

Leia mais

A postura diante o sofrimento
A grande diferença reside na maneira como decidimos carregar essa cruz. Quando enfrentamos as dores com fé e as oferecemos a Deus, temos a capacidade extraordinária de transformar lágrimas em bênçãos e em amadurecimento espiritual. Cair na blasfêmia ou buscar o alívio nos vícios apenas duplica o sofrimento.

O vício funciona como uma urticária. Quanto mais você coça para aliviar a coceira momentânea, mais a irritação se espalha pelo corpo, tornando o problema muito pior. Em vez de agravar a ferida com falsas saídas, o caminho correto é buscar o remédio certo na oração e na paciência. Escolher passar pelas provações ao lado de Deus torna o peso consideravelmente mais leve e confere um sentido real ao sofrimento.

Transcrito e adaptado por Jaqueline Scarpin


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

São Jerônimo: a Bíblia nos conduz a Cristo e transforma a fé

Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo

No dia 30 de setembro, a Igreja Católica celebra a memória de São Jerônimo, um dos grandes estudiosos das Sagradas Escrituras. No Brasil, essa data também encerra o Mês da Bíblia, celebrado durante todo o mês de setembro. Não poderia haver ocasião melhor para fazermos uma pergunta bastante simples: qual é o lugar que a Bíblia ocupa, de fato, em nossa vida?

Crêdito: Domínio Público, Domenico Ghirlandaio / Wikimedia Commons.

Muitos de nós temos uma Bíblia em casa. Talvez até mais de uma. Recebemos uma na catequese, compramos outra edição algum tempo depois ou ganhamos de alguém. Mas ter uma Bíblia não significa, necessariamente, conhecer a Sagrada Escritura.

E aqui podemos aprender muito com São Jerônimo. Ele dedicou grande parte de sua vida ao estudo da Palavra de Deus. Aprendeu línguas, pesquisou textos, estudou várias áreas do conhecimento e realizou um trabalho bíblico muito importante na história da Igreja: a tradução das Escrituras para o latim, conhecida como Vulgata.

Mas seria pouco olhar para São Jerônimo apenas como um grande intelectual. Todo aquele enorme esforço tinha uma finalidade muito maior. Ele queria conhecer cada vez mais profundamente a Palavra de Deus porque, por meio dela, queria conhecer Jesus Cristo. Não por acaso, é dele uma frase que atravessou o tempo e continua profundamente atual: Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo.

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A Bíblia nos conduz a Jesus
Às vezes, podemos cometer o erro de olhar para a Bíblia apenas como um conjunto de histórias antigas, normas religiosas, ensinamentos morais ou frases bonitas para utilizar em determinados momentos da vida.

Ela é muito mais do que isso. A Bíblia apresenta a história de salvação. E toda essa história converge para Jesus Cristo. Nesse sentido, ler a Bíblia é também percorrer um caminho semelhante ao vivido pelos primeiros discípulos. Eles caminharam com Jesus, ouviram Suas palavras, presenciaram Seus milagres, enfrentaram dúvidas e dificuldades e, pouco a pouco, foram descobrindo quem Ele realmente era.

A leitura bíblica também precisa nos colocar nesse caminho. Não lemos apenas para acumular informações sobre Deus. Lemos para conhecê-Lo. E talvez seja esse um dos maiores ensinamentos que São Jerônimo pode deixar para nós neste 30 de setembro. Ele empregou inteligência, estudo, disciplina e grande parte de sua vida para mergulhar nas Sagradas Escrituras. Mas não estudou a Bíblia simplesmente para conhecer melhor um livro. Buscou a Escritura para conhecer melhor uma Pessoa: Jesus Cristo.

Por isso, neste Dia da Bíblia, talvez o melhor modo de celebrar seja também o mais simples: pegar nossa Bíblia, abri-la e (re)começar a leitura e o estudo. Porque quanto mais conhecemos a Palavra de Deus, mais somos conduzidos Àquele que disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14,6).


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Deus quer que você viva o presente, viva a boa semente em Cristo


Como semear a boa semente no dia a dia
Olá, queridos amigos! Nós estamos levando para você a boa semente. Aquele pouquinho que eu sei, que eu estudo, que eu quero deixar para vocês: a meditação que Deus quer que nós vivamos no dia de hoje. E você não se esqueça nunca de levar a sua semente para o terreno do outro, para o coração do outro. É assim que nós vamos semear a boa semente, que é Jesus Cristo.

Quando você leva a Boa Semente para o irmão – seja a Bíblia, uma mensagem, alguma coisa boa para o irmão – você está levando uma boa semente para regar o coração dele. Nós precisamos de muita força e alegria, e nós estamos nessa batalha, nessa luta interior de sermos vencedores em Cristo.

A Palavra de Deus em 1 Coríntios 10,12-13 e as provações da vida
A Palavra que Deus nos dá hoje está em Primeira Coríntios 10,12-13: “Portanto, quem julga estar de pé, tome cuidado para não cair. Não tendes sido provados além do que é humanamente suportável. Deus é fiel e não permitirá que sejais provados acima de suas forças. Pelo contrário, junto com a provação, ele providenciará o bom êxito para que possa suportá-la”. Isso aqui é a esperança que Deus traz para nós no dia de hoje, a felicidade d’Ele. Ele é fiel com quem Ele chamou nas horas de provação. Então, você tem que ser fiel a Deus, porque Ele é fiel a você mesmo nas provações, certo?

Buscando a santidade e fugindo do pecado
Quando falamos em santidade, parece uma coisa tão distante de nós, mas tão distante, que acabamos dizendo: “Eu não tenho como ser santo”. É ao contrário: Deus quer que você seja santo. E o que é ser santo? É viver uma vida normal que Ele nos deixou. Deus já deixou toda a Sua lei aqui, o velho e novo. Você quer saber alguma coisa para a sua santidade, o que você deve e o que não deve fazer? Você acha na Bíblia. Não é importante uma coisa assim? Então, eu penso que, cada vez mais, nós devemos procurar a nossa santidade. E, para ser santo, eu tenho que fugir de muitas coisas.

Os perigos da prostituição mental e da idolatria
A ira de Deus é outro exemplo que eu posso trazer para vocês. Não podemos deixar Deus ficar bravo. E quando Ele fica bravo? Quando fazemos alguma coisa de ruim para nós mesmos ou para o irmão, nós nos distanciamos d’Ele. Não é que Deus tira o Seu olhar de nós, mas nós nos distanciamos d’Ele, damos-Lhe as costas. E Deus não quer isso. Ele quer nos amar, e quer que nós O amemos.

Outro exemplo que eu posso trazer para vocês é a prostituição, que não é somente a relação sexual errônea, mas também a prostituição mental, pois existe aquele olhar maligno que você não consegue dominar. Então, o que acontece? Deus se afasta. E essa liberdade que Deus nos dá, que é o perigo. Jesus, quando veio e trouxe para nós essa boa nova, essa libertação, nós misturamos “alho com bugalho”.

Como é triste a idolatria! É muito difícil a pessoa que idolatra, que não foge das paixões da mocidade!
O cuidado com a liberdade e com as paixões da mocidade
Às vezes, você tem 60, 70, 50 anos, e relembra a sua mocidade e sente falta dela. Nossa, lembra aquela moça com quem eu saí? Lembra aquela bebedeira? Lembra aquela festa, lembra aquilo isso, aquilo outro? Você ainda está vivendo o passado. Deus quer que você viva o presente. O passado já foi!

Você, muitas vezes, acorda com aquela vontade de ter uma vida de 30 anos. Aí você cai na sua, levanta, lava o rosto, toma um café e fala: “É… estou com 70, estou com 50, não sou mais aquele”. Certo? Lembra quando você era responsável por uma turma no seu serviço? Que todo mundo o bajulava? Lembra quando você era o rei da cocada branca ou a rainha da cocada preta na vida que você dominava, que você era a mais charmosa, que você era a que mais aparecia, que você era mais bonita, o mais bonito? Isso tudo passa.

O verdadeiro líder vive no presente com humildade
Um líder não depende do passado. Quando Deus nos coloca essa Palavra: “Quem julga estar de pé, toma cuidado para não cair”, eu quero dizer para você o seguinte: um líder não precisa de passado, ele tem que ser líder no presente. Eu fui responsável pela Canção Nova por 50 anos. Eu não tenho um inimigo na Canção Nova, e aqueles que passaram e já foram embora, estão vivendo outra vida.

Eu recebi uma visita muito importante para mim essa semana. Ele saiu do serviço dele, estava passando por Cachoeira Paulista [sede da Canção Nova], e veio me visitar, foi à minha casa. Ele chegou lá, sentamos no sofá e ele puxou aqueles assuntos antigo que nós vivíamos, aquela coisa toda… Como é bom a gente viver assim! Como é bom relembrar a alegria do passado! Mas nós não vivemos o passado.

Então, meu amigo, “quem julga estar de pé, tome cuidado para não cair. Não tendes sido provados além que a humanidade suportável. Deus é fiel e não permitirá que sejais provado acima de suas forças”. Seja dócil, seja amigo, abra o seu coração para o seu irmão, seja ele preto, branco, azul, cor-de-rosa, a cor que for… Ao dinheiro que tiver, ele é seu irmão, ele é filho de Deus.

Então você não é chefe. E se você é chefe, você é o chefe hoje. Amanhã a Deus pertence. Às vezes, irmão, hoje você é chefe, e eu sou subordinado. Às vezes, amanhã, eu sou chefe e você poderá ser subordinado. E aí Jesus o ama e eu também.

Deus abençoe seu dia.

Do seu amigo,

Wellington Silva Jardim – Eto
Cofundador da Comunidade Canção Nova

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Humildade e amor-próprio ao encontro do equilíbrio


A humildade e o ego, um conflito aparente

Muitas pessoas confundem virtude com anulação, chegando a se perguntar se amar a si mesmo é um erro. No entanto, ser humilde não significa destruir-se ou rebaixar-se. O mandamento é claro: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Portanto, para conseguir amar o outro, você precisa, primeiro, cultivar o amor-próprio.

Esse cuidado pessoal serve como base e medida para a forma como devemos tratar o próximo no dia a dia. Compreender o que é humildade passa longe de anular-se. Uma das definições mais belas vem de Santa Teresa d’Ávila, a qual ensina que a humildade é, fundamentalmente, caminhar na verdade.

A humildade na visão dos santos
Caminhar na verdade significa olhar para si mesmo com coragem e reconhecer, com honestidade, as próprias qualidades e defeitos. Santa Catarina de Sena também aconselhava o fiel a entrar na “cela do autoconhecimento” para descobrir o seu nada e a grandeza de Deus. Esse processo não serve para diminuir o ser humano, mas para ajustá-lo ao seu real papel. Deus deseja que você cresça, desenvolva-se e aprimore cada vez mais as suas capacidades.

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A humildade na prática da multiplicação dos talentos
Devemos desenvolver os talentos que recebemos, não para alimentar o orgulho ou a vaidade, mas para servir melhor ao próximo. Quanto mais competentes formos em nossa missão, mais úteis seremos na construção do Reino de Deus. O único cuidado necessário é não se tornar um “ladrão da glória de Deus”. Reconheça que tudo o que você faz de bom é fruto de um dom divino. Ser humilde é buscar a excelência sem achar que o mérito é puramente seu, mas sim da graça de Deus.

Transcrito e adaptado por Jaqueline Scarpin

Autor: Prof. Felipe Aquino

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Entenda por que a primavera é o tempo das surpresas de Deus

Na Canção Nova é assim

A primavera, conhecida como a estação das flores, traz consigo uma imagem particularmente rica para a vida espiritual. Depois dos períodos de frio e de recolhimento, a criação parece despertar: surgem novas cores, renovam-se as paisagens e a vida manifesta, de modo visível, a fecundidade escondida na terra. Para a espiritualidade da Canção Nova, essa imagem também pode iluminar a maneira como Deus conduz a história de uma comunidade.

Créditos: Rophiman Souza / cancaonova.com

Na trajetória do fundador e na história da Comunidade Canção Nova, diversos acontecimentos marcantes ocorreram durante essa estação. Mais do que uma simples coincidência cronológica, esses fatos são contemplados pela comunidade como sinais da ação providente de Deus.

As estações da natureza e os tempos da vida
A criação possui ritmos próprios. O verão, o outono, o inverno e a primavera apresentam características diferentes, às quais precisamos nos adaptar. Não se vive o inverno como se fosse verão, nem se pode exigir da terra, em todo momento, os mesmos frutos. Cada estação tem sua beleza, sua finalidade e suas exigências.

A vida humana também é feita de ciclos. Há momentos de grande atividade, períodos de espera, fases de poda, ocasiões de silêncio e tempos em que aquilo que estava escondido começa a florescer. Na perspectiva apresentada pelo vídeo, reconhecer o tempo que se vive é uma atitude de sabedoria espiritual. A pessoa que identifica sua própria estação pode acolher melhor aquilo que Deus lhe pede, sem desespero diante da provação nem presunção diante da consolação.

Na Canção Nova, esses períodos particularmente significativos são chamados de “tempos fortes”. A expressão não significa que Deus esteja ausente nos demais momentos, mas que certos acontecimentos permitem perceber com maior clareza a direção da Providência. O Senhor age sempre; contudo, em algumas fases, sua ação se torna especialmente perceptível para quem contempla a história com fé.
A primavera na história de Monsenhor Jonas Abib

A primavera e o início do verão reúnem datas decisivas na vida de Monsenhor Jonas Abib. O fundador nasceu em 21 de dezembro, foi ordenado sacerdote em 8 de dezembro, viveu seu batismo no Espírito Santo em 2 de novembro e recebeu o chamado relacionado à Comunidade Canção Nova em 27 de novembro. Seu falecimento também ocorreu em 12 de dezembro.

Créditos: Rophiman Souza / cancaonova.com

Essas datas não são apresentadas para transformar a Providência em um cálculo ou para afirmar que Deus se limite a um período do calendário. Elas são contempladas como parte de uma história concreta, na qual a graça se manifestou em acontecimentos familiares,
vocacionais e comunitários. Para a fé católica, Deus conduz a história sem abolir a liberdade humana; sua ação providente se realiza por meio de pessoas, decisões, encontros, sofrimentos e recomeços.

Os frutos da missão também floresceram na primavera
A mesma percepção é aplicada à história da Comunidade Canção Nova. O vídeo recorda diversos acontecimentos ligados à expansão de sua missão, à evangelização e ao serviço aos necessitados. Entre eles estão a inauguração do Posto Médico Padre Pio, em 23 de setembro; a inauguração da Rádio em Portugal, em 5 de outubro; a abertura das Casas Missionárias de Belo Horizonte e Queluz, em outubro; e a inauguração da Casa do Bom Samaritano, também em outubro. São lembrados ainda acontecimentos relacionados ao reconhecimento pontifício, à dedicação do Santuário do Pai das Misericórdias e à inauguração da TV Canção Nova e da Companhia de Artes e Esportes.

A chuva da primavera e a vinda do Senhor
A passagem de Oseias escolhida para concluir a reflexão é profundamente significativa. O profeta compara a vinda do Senhor à aurora e à chuva da primavera, aquela que irriga a terra e prepara a colheita. A imagem bíblica não fala de uma emoção passageira, mas de uma visita de Deus que restaura, fecunda e conduz à vida.

A primavera espiritual pode surgir depois de um tempo difícil, mas não depende de a vida estar livre de problemas. Às vezes, Deus faz florescer a esperança no meio do deserto; outras vezes, concede a graça de atravessar o deserto com perseverança. O essencial é não
perder a confiança de que o Senhor continua presente e trabalhando, mesmo quando ainda não vemos os frutos.

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Abandonar-se nas mãos da Providência
O convite é claro: viver essa realidade como a Canção Nova procura vivê-la, abandonada nas mãos da Providência Divina. Esse abandono não é acomodação, fatalismo ou desistência da responsabilidade. É a confiança filial de quem procura cumprir Abandonar-se à Providência é continuar semeando quando ainda não há flores. É servir mesmo quando não se recebe reconhecimento. É aceitar que algumas podas são necessárias para que a vida produza frutos mais abundantes. É discernir, na oração e na comunhão com a Igreja, o que Deus deseja realizar em cada etapa.

Qual é a nossa estação espiritual?
A mensagem da primavera pode ser aplicada à vida cotidiana. Talvez alguém esteja vivendo um inverno de provação, uma fase de silêncio ou uma experiência de aparente esterilidade. Talvez outro esteja recebendo novas responsabilidades, vocações e oportunidades de
serviço. Há ainda quem esteja no tempo da colheita, chamado a agradecer, partilhar os frutos e preparar novas sementes.

A pergunta decisiva não é apenas “o que está acontecendo comigo?”, mas “como Deus me chama a viver este momento?”. Em qualquer estação, o Senhor permanece fiel. No inverno, Ele sustenta; no outono, ensina a desprender-se; no verão, pede perseverança; na
primavera, convida a acolher com alegria aquilo que começa a nascer.

A história recordada pelo vídeo aponta para essa esperança. As surpresas de Deus não precisam ser espetaculares para serem verdadeiras. Podem aparecer em uma conversão, em uma reconciliação, em um chamado, em uma obra de caridade, em uma nova missão ou na força silenciosa para recomeçar. Quando a pessoa se abandona nas mãos do Senhor, aprende a reconhecer que a graça já estava atuando antes mesmo de os primeiros sinais aparecerem.

A primavera, para a Canção Nova, tornou-se uma imagem dos tempos fortes da Providência: um período em que muitos acontecimentos decisivos da vida de Monsenhor Jonas Abib e da comunidade parecem formar um testemunho de fecundidade, missão e confiança. A natureza oferece a metáfora; a história oferece os sinais; a fé permite reconhecer, por trás de tudo, o cuidado de Deus.

Que esta reflexão nos ajude a contemplar a própria vida com olhos renovados. Se existe uma semente escondida, cuidemos dela com paciência. Se novos frutos começam a surgir, recebamo-los com humildade e na ação de graças. A promessa permanece: Deus vem como a chuva da primavera que irriga a terra. Por isso, mesmo depois de noites longas, o cristão pode esperar com confiança. Nas mãos da Providência, cada novo tempo pode tornar-se ocasião de graça, serviço e florescimento espiritual.

O vídeo apresentado por Patrícia Mendes recorda um ensinamento associado a Monsenhor Jonas Abib: “A primavera é o tempo das surpresas de Deus”.

Transcrito e adaptado por Rophiman Souza

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A Amoris Laetitia e a sua riqueza dez anos depois

O poder de Amoris Laetitia: Transformando vidas e lares hoje. Ninguém nasceu para viver sem os outros.

Os elementos de maior visibilidade na exortação pós sinodal Amoris Laetitia a meu ver são três: Antropológico, eclesiológico e sócio – familiar.

Crédito: andreswd / GettyImages

Para compreender o primeiro deles é necessário nos adentrarmos no conceito de pessoa que o pontificado do Papa Francisco desenvolveu ao longo de todos os anos nos quais ele sempre insistiu na pessoa como ser em “relação”. A capacidade que a pessoa possui de criar relações. A pessoa desvenda dentro de si a maior de todas as capacidades quer dizer a vontade de se relacionar, de se aproximar.

Ninguém nasceu para viver “sem os outros” somos para os outros. A análise desde o primeiro capítulo leva-nos a perceber que a superação do isolamento é a primeira atitude da pessoa que em si mesma sai ao encontro do outro. Um encontro com aquele ou aquela a quem pode amar e escolher.
Família a força indissociável do encontro que salva e fortalece

“Deste encontro, que cura a solidão, surge a geração e a família. Este é um segundo detalhe, que podemos evidenciar: Adão, que é também o homem de todos os tempos e de todas as regiões do nosso planeta, juntamente com a sua esposa dá origem a uma nova família, como afirma Jesus citando o Génesis: «Unir-se-á à sua mulher e serão os dois um só» (AL 13).

Ao afirmar que os dois serão um só não está dizendo que um desaparecerá e o outro ficará. Os dois se unirão de tal modo que nada poderá dissociar aquela intenção de encontro que salva e fortalece.

O encontro corresponde a este chamado que faz o Criador de propor uma vida juntos, onde cada um vive sua identidade, mas que no momento específico se descobrem como um só.
A escolha como resposta e sobretudo como presença

Antropologicamente há dois movimentos na Amoris Laetitia que sustentam esta direção de ir um na procura do outro. Em primeiro lugar um movimento desde o coração e um segundo para fora do coração. Tudo isto faz parte da escolha que cada pessoa faz da outra como resposta e sobretudo como presença.
Amoris Laetitia, a liberdade de escolha e a prática das virtudes

Dentro da liberdade de escolha a pessoa pode não somente descobrir o verdadeiro e essencial sentido das suas opções como também da capacidade inerente à sua verdade. A grandeza deste item na exortação Amoris Laetitia permeia os elementos fundamentais de um processo que contribua a desenvolver uma pastoral de discernimento.

“A liberdade de escolher permite projetar a própria vida e cultivar o melhor de si mesmo, mas, se não tiver objetivos nobres e disciplina pessoal, degenera numa incapacidade de se dar generosamente. De fato, em muitos países onde diminui o número de matrimônios, cresce o número de pessoas que decidem viver sozinhas ou que convivem sem coabitar”. (AL 33).
A grandeza do amor e das virtudes no matrimônio cristão

Para a vida cristã esta descoberta ajuda a entrever aquilo que poderíamos chamar da prática das virtudes que brotam do ser mesmo da pessoa.

Amabilidade, generosidade, desprendimento, perdão são dons gratuitos que brotam posteriormente na experiência mais genuína de quem opta pela vida conjugal. Acredito que aqui se encontra o sentido da vida matrimonial desde um âmbito teológico e antropológico ou como diz o mesmo documento é desde aqui que podemos enxergar a grandeza do amor de Deus por cada pessoa humana.
A vida conjugal, lugar de se perceber amado e de modo especial esperado

“O matrimónio é um sinal precioso, porque, «quando um homem e uma mulher celebram o sacramento do matrimónio, Deus, por assim dizer, “espelha-Se” neles, imprime neles as suas características e o carácter indelével do seu amor. O matrimónio é o ícone do amor de Deus por nós. Com efeito, também Deus é comunhão: as três Pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – vivem desde sempre e para sempre em unidade perfeita. É precisamente nisto que consiste o mistério do matrimónio: dos dois esposos, Deus faz uma só existência»”. (AL 121).

Neste sentido, o Papa Francisco sempre insistiu ao longo do seu pontificado em traduzir o fato de que a vida conjugal não é um pacto ou uma convenção bilateral entre duas pessoas. Quando duas pessoas se encontram significa que cada uma delas está ciente da grandeza do “outro” onde pode se perceber como totalmente amado e de modo especial esperado.
Amoris Laetitia, casar-se por amor e para o amor

A beleza do matrimônio está justamente aqui. O reflexo da caridade que brota do mais belo exercício de reconhecimento que gera maior alegria quando cada um exerce o perdão como expressão grandiosa deste ato sublime de ser um para o outro.

“É verdade que o amor é muito mais do que um consentimento externo ou uma forma de contrato matrimonial, mas é igualmente certo que a decisão de dar ao matrimónio uma configuração visível na sociedade com certos compromissos manifesta a sua relevância: mostra a seriedade da identificação com o outro, indica uma superação do individualismo de adolescente e expressa a firme opção de se pertencerem um ao outro. Casar-se é uma maneira de exprimir que realmente se abandonou o ninho materno, para tecer outros laços fortes e assumir uma nova responsabilidade perante outra pessoa”. ( AL, 131 – 133).
Um amor que manifestado e vivido

A beleza do casamento está então no casar-se por amor e para o amor. Um amor que manifestado e vivido, ajuda no crescimento e de modo especial no amadurecimento de cada um dos cônjuges. Na exortação podemos constatá-lo em alguns dos numerais que sublinham a importância deste processo vivido e sustentado a dois querendo ser um.

A análise que realizamos destes textos nos leva a concluir que a pessoa humana vivência desde antes do momento de pensar em si mesma a proposta de ir ao encontro de um outro que lhe faz pleno e realiza seu ser mais íntimo na esperança de responder a sua vocação. Isto vale para pessoas que optam pela vida de casal ou pela vida celibatária.
O que as leis não podem ensinar sobre o amor e a família

Aqui está a grandeza antropológica desta visão que trouxe para nós o desenvolver da Amoris Laetitia em relação ao mundo das emoções, das paixões e da maturidade afetiva. Só quem descobre o valor de uma vida dada e doada pode descobrir o singular e transcendental fato de amar e ser amado através do coração e não de posturas dogmáticas ou meramente abstratas. Cria-se relações éticas e evita todo tipo de manipulação.

O amor não só dignifica a pessoa como também a conduz dentro de um caminho cada vez mais claro em direção ao seu horizonte social e cultural.

Espero que cada pessoa possa entender que a antropologia do matrimônio e da família não dependem das condições que o estado ou as leis civis possam emitir e sim da especial e renovadora vida que cada pessoa descobre na sua família. Uma vida vivida para os outros e com os outros.

Rafael Solano. Presbítero da Arquidiocese de Londrina – PR. PhD em Teologia Moral. Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Coordenador do Curso de Teologia da PUCPR Campus Londrina – PR.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Da diversão ao vício - como os jogos de aposta agem em nós?

Em que momento a diversão deixa de ser diversão?

Buscando um momento de diversão e distração, tudo vai acontecendo de forma inocente e, sem que percebamos, vamos sendo tomados pela necessidade de jogar. Uma aposta entre amigos, um jogo facilmente acessível pelo celular e estimulado por influenciadores digitais e times de futebol. A promessa inclusa na propaganda é clara: você terá diversão garantida, rápida, barata e, acima de tudo, a oportunidade de enriquecer.

E olha que coisa interessante: quem não gostaria de enriquecer apostando muito pouco? Ah, mas se der errado, eu paro. E, de fato, muitas pessoas apostam e conseguem parar. Mas o que temos nos deparado é com milhares e milhares de relatos de endividamento e perda de patrimônio, problemas financeiros e outros mais.

O que era a chance de enriquecer, passa a ser uma uma fonte de expectativa, ansiedade, adrenalina e, na maioria das vezes, de sofrimento.

Crédito: luza studios by Getty Images.

O início de um ciclo perigoso
As apostas não dependem apenas da nossa vontade de ganhar. Elas podem ativar mecanismos psicológicos específicos e jamais são feitos de forma aleatória. Os jogos são construídos com detalhes cuidadosamente planejados para manter nossa atenção, despertar a expectativa de ganhar e nos incentivar a continuar apostando.

Quando apostamos, existe uma expectativa em relação ao resultado. O cérebro entra em estado de antecipação: “Será que vou ganhar?”. Essa espera pode ser estimulante. Quando ocorre uma recompensa, sentimos prazer e satisfação. E quando perdemos, pode surgir imediatamente o desejo de tentar novamente.

É aí que começa um dos ciclos mais perigosos. Ganhar pode fazer com que a pessoa queira continuar. Perder também.

Depois de uma perda, é muito comum aparecer o pensamento: “Agora eu vou recuperar”. E iniciam-se as pequenas apostas para uma tentativa maior, mas que, ao longo do tempo, somam altos valores e comprometimento financeiro.

Esse pensamento alimenta um ciclo.

Perde → tenta recuperar → aposta mais → perde novamente → tenta recuperar novamente.

E quanto maior o prejuízo, maior pode ser a dificuldade de parar.
Se formos pensar em qual conceito define essa relação com os jogos, chegamos a uma definição técnica e médica para isso:

Segundo o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Texto Revisado), o transtorno de jogos pela internet (Internet Gaming Disorder) é caracterizado por um padrão recorrente e persistente de comportamento relacionado a jogos eletrônicos, principalmente on-line, que leva a prejuízos significativos na vida pessoal, social, acadêmica ou profissional.
O que pode ser observado para entendermos que há um problema relacionado aos jogos?

Os principais critérios incluem:
Preocupação excessiva com jogos;
Sintomas de abstinência quando não joga;
Necessidade de aumentar o tempo de jogo para obter satisfação;
Tentativas fracassadas de controlar ou reduzir o tempo de jogo;
Perda de interesse por outras atividades;
Uso continuado mesmo com prejuízos evidentes;
Mentiras sobre o tempo gasto jogando;
Uso dos jogos como fuga de emoções negativas;
Prejuízos em áreas importantes da vida.
Quando o ato de apostar se torna um alívio temporário, trazendo duras consequências com o tempo

Outro aspecto importante é que não somos influenciados apenas quando ganhamos. Há um chamado nos jogos que nos faz encontrar uma questão particularmente delicada: a aposta oferece uma recompensa imediata em um mundo no qual muitas das nossas conquistas exigem tempo. Todos aqueles que nos influenciam para a continuidade no jogo nos levam a crer que é fácil, rápido, possível e barato.

Essa possibilidade que sempre fica no aspecto “quase” nos move efetivamente para um comportamento repetitivo. Aquilo que ficou no “quase ganho”, nos faz voltar a jogar para tentar de novo, porque uma nova aposta pode levar ao ganho (ou a ilusão dele).

Se você tem vivido isso, pergunte-se sinceramente porque o jogo entrou na sua vida. O que você tem buscado? Emoção, esperança, distração, reconhecimento, sensação de competência ou simplesmente uma maneira de fugir, por alguns momentos, de sentimentos difíceis? Tem trocado a vida e suas emoções pelo jogo? Quando estou triste, aposto. Quando estou entediado, aposto. Quando estou frustrado, aposto.

E, pouco a pouco, o cérebro pode aprender essa associação: “Quando me sinto mal, apostar me faz sentir alguma coisa.”

O problema é que o alívio costuma ser temporário. E este alívio temporário muda nossa relação com o jogo, com a vida, com as pessoas.

Depois podem aparecer a culpa, a vergonha, a preocupação com o dinheiro, os conflitos familiares e a necessidade de esconder o comportamento.

A pessoa pode começar a mentir sobre o quanto apostou. Pode esconder perdas. Pode pedir dinheiro emprestado. Pode utilizar recursos destinados a contas importantes. Pode comprometer o orçamento familiar.

E, muitas vezes, continua dizendo para si mesma:
“Eu consigo parar quando quiser.”

Essa frase merece atenção.
Não porque toda pessoa que aposta tenha um problema, mas porque a dificuldade de interromper o comportamento, apesar das consequências negativas, é um importante sinal de alerta.

A dependência não é simplesmente falta de caráter, irresponsabilidade ou falta de força de vontade. É um problema complexo, que envolve comportamento, emoções, aprendizagem, recompensa e contexto de vida.

Por isso pedir ajuda não deveria ser motivo de vergonha.
Às vezes, a pessoa demora a procurar ajuda porque acredita que precisa, primeiro, “resolver o problema do dinheiro”. Mas pode ser justamente o contrário: enquanto o comportamento de apostar não for compreendido e cuidado, a tentativa de recuperar financeiramente o que foi perdido pode levar a novas perdas.

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Compreender o que está por trás da vontade de apostar
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender os gatilhos, identificar pensamentos automáticos, desenvolver estratégias para lidar com ansiedade e frustração e construir novas formas de buscar prazer, segurança e satisfação.

E a família também tem um papel importante. Não se trata de humilhar, ameaçar ou simplesmente dizer: “Pare de apostar”. É preciso estabelecer limites, proteger as finanças e, ao mesmo tempo, compreender que existe um sofrimento por trás daquele comportamento.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
“Por que você continua apostando?”

Talvez seja:
“O que acontece dentro de você quando sente vontade de apostar?”

Essa pergunta abre uma porta.
Se você tem vivido isso, tenha coragem de dar o primeiro passo, avaliando quanto você tem em dívidas, o que tem comprometido sua vida e o que tem acontecido contigo neste tempo. Quanto mais rápido você tiver essa consciência e essa ação, mais rápida será a forma de lidar com essa realidade e livrar-se de um mal que pode estar levando você à perda de esperança na vida.

Autora: Eleaine Ribeiro dos Santos
Psicologa Clínica