sábado, 5 de março de 2022

A heresia Monotelitista


Os monofisitas, que acreditavam que em Cristo havia somente a natureza divina, embora condenados no Concílio de Calcedônia (451), insistiam em seu erro. Por isso a heresia reapareceu no século VII sob nova forma.

O Patriarca Sérgio de Constantinopla desde 619 ensinava que em Jesus havia uma só capacidade de agir (monergetismo). Havia uma só faculdade operativa; a capacidade humana estaria absorvida na divina e não teria suas expressões naturais. O imperador bizantino Heráclio (610-641) aceitou a nova fórmula e conseguiu assim reconciliar grupos monofisitas com o Império.

No entanto, o monge palestino Sofrônio resistiu ao erro e denunciou-o como monofisismo velado. O Patriarca Sérgio deixou então, de falar de uma só faculdade operativa, para afirmar uma só vontade (a Divina tendo absorvido a humana) em Jesus (monoteletismo).

Habilmente, Sérgio tentou ganhar os favores do Papa Honório I (625-638), que não estava bem informado sobre a questão. Tendo recebido informações unilaterais, o Papa escreveu duas cartas ao Patriarca Sérgio, em que aderia genericamente à sua posição, embora não compartilhasse propriamente nem o monoteletismo nem o monofisismo, e, para evitar escândalos ordenava “não se falasse de uma ou duas energias”.

Levando adiante a causa de Sérgio, o imperador Heráclio (610-641), em 638, promulgou a profissão de fé dita Ectese, redigida pelo Patriarca, que reafirmava o monoteletismo. Os bispos orientais a aceitaram quase unanimemente, ao passo que os sucessores do Papa Honório I (morto em 638) a condenaram. O Papa Severino (640) se negou aprovar a Ectese.

O imperador Constâncio II (641-668), sobrinho de Heráclio, retirou a Ectese, porém, aconselhado pelo Patriarca Paulo de Constantinopla, publicou novo edito dogmático chamado Tipos, em 648, que proibia falar de uma ou duas vontades em Cristo. O monarca queria pôr fim à disputa.

O Papa João IV (640-642), reuniu em Roma um sínodo contra os monoteletistas, e em carta ao imperador bizantino comentou os equívocos de seu antecessor Honório I. O Papa Teodoro I (642-649), substituiu João IV e continuou o combate ao monoteletismo e condenou os patriarcas de Constantinopla que aderiram à heresia. O imperador bizantino, então, aceitou revogar sua fórmula de fé pelo monoteletismo. Martinho I (649-653) substituiu Teodoro I sem a homologação do imperador de Bizâncio, Constâncio II.

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Martinho I reuniu um Concílio no Latrão (Roma) em 649, o qual declarou que em Cristo havia “dois modos de operar e duas vontades naturais”, e puniu com a excomunhão os defensores das novas ideias monoteletistas. O sucessor de Vitaliano, o Papa Adeodato II (672-676) continuou o combate ao monoteletismo. O imperador Constantino IV, Pogonato (668-685), filho de Constâncio II, procurou a paz e convocou um Concílio Ecumênico, aprovado pelo Papa Agatão (678-681).

Agatão foi eleito Papa em junho de 678 e recebeu uma mensagem do imperador com o pedido de restabelecer a unidade com Roma. Tivemos então o sexto Concílio Ecumênico – Constantinopla III (ou de Trullos) – em novembro de 680 a setembro de 681, com a presença de 170 participantes. Os conciliares elaboraram uma profissão de fé que completava a de Calcedônia:

“Nós professamos, segundo a doutrina dos Santos Padres, duas vontades naturais e dois modos naturais de operar, indivisos e inalterados, inseparados e não misturados, duas vontades diversas, não, porém, no sentido de que uma esteja em oposição à outra, mas no sentido de que a vontade humana segue e se subordina à divina”.

“Cristo possui duas vontades e duas operações naturais, divinas e humanas, não opostas, mas cooperantes… A vontade humana de Cristo ‘segue a vontade divina, sem estar em resistência nem em oposição em relação a ela, mas antes sendo subordinada a esta vontade todo-poderosa’” (DS, 556; CIC, §475).

Ficou claro que em Jesus havia duas vontades – a divina e a humana – de tal modo, porém, que a vontade humana se sujeitava à divina, como atesta a oração de Jesus no Horto das Oliveiras (cf. Mc 14,36). Mais uma vez Roma era considerada o refúgio da fé católica.

O Concílio condenou os defensores do monoteletismo e o próprio Papa Honório. A condenação de Honório suscitou longos debates entre historiadores e teólogos modernos, especialmente durante o Concílio Vaticano I (1870) que com o Papa Pio IX, proclamou o dogma da infalibilidade Papal. Depois o Papa Leão II (682-683) condenou o monoteletismo. Dom Estêvão Bettencourt defende o Papa Honório I, dizendo:

O Papa Honório, intervindo na controvérsia, não quis proferir definições ex cathedra, nem quis discutir como teólogo. Unilateralmente informado por Sérgio, julgou que a discussão a respeito de uma ou duas vontades em Cristo era mero litígio de palavras, como estava nos hábitos dos bizantinos; por isto julgou que podia aprovar a posição de Sérgio sem afetar a reta fé.

A expressão “uma vontade”, aliás, foi explicada pelo próprio Honório em sua carta a Sérgio, no sentido de conformidade do querer humano com o divino. Quanto às faculdades de operar, Honório esclareceu seu ponto de vista referindo-se à epístola dogmática de São Leão Magno a Flaviano, que diz: “ambas as naturezas operam na única pessoa de Cristo, não misturadas, não separadas e não confusas, aquilo que é próprio de cada uma delas”. Donde se vê que o juízo proferido sobre Honório pelo Concílio de 681 foi severo demais. A Sé de Roma nunca o aprovou integralmente.

Retirado do livro: “História da Igreja – Idade Média”. Prof. Felipe Aquino. Ed. Cléofas.

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