O poder de Amoris Laetitia: Transformando vidas e lares hoje. Ninguém nasceu para viver sem os outros.
Os elementos de maior visibilidade na exortação pós sinodal Amoris Laetitia a meu ver são três: Antropológico, eclesiológico e sócio – familiar.

Crédito: andreswd / GettyImages
Para compreender o primeiro deles é necessário nos adentrarmos no conceito de pessoa que o pontificado do Papa Francisco desenvolveu ao longo de todos os anos nos quais ele sempre insistiu na pessoa como ser em “relação”. A capacidade que a pessoa possui de criar relações. A pessoa desvenda dentro de si a maior de todas as capacidades quer dizer a vontade de se relacionar, de se aproximar.
Ninguém nasceu para viver “sem os outros” somos para os outros. A análise desde o primeiro capítulo leva-nos a perceber que a superação do isolamento é a primeira atitude da pessoa que em si mesma sai ao encontro do outro. Um encontro com aquele ou aquela a quem pode amar e escolher.
Família a força indissociável do encontro que salva e fortalece
“Deste encontro, que cura a solidão, surge a geração e a família. Este é um segundo detalhe, que podemos evidenciar: Adão, que é também o homem de todos os tempos e de todas as regiões do nosso planeta, juntamente com a sua esposa dá origem a uma nova família, como afirma Jesus citando o Génesis: «Unir-se-á à sua mulher e serão os dois um só» (AL 13).
Ao afirmar que os dois serão um só não está dizendo que um desaparecerá e o outro ficará. Os dois se unirão de tal modo que nada poderá dissociar aquela intenção de encontro que salva e fortalece.
O encontro corresponde a este chamado que faz o Criador de propor uma vida juntos, onde cada um vive sua identidade, mas que no momento específico se descobrem como um só.
A escolha como resposta e sobretudo como presença
Antropologicamente há dois movimentos na Amoris Laetitia que sustentam esta direção de ir um na procura do outro. Em primeiro lugar um movimento desde o coração e um segundo para fora do coração. Tudo isto faz parte da escolha que cada pessoa faz da outra como resposta e sobretudo como presença.
Amoris Laetitia, a liberdade de escolha e a prática das virtudes
Dentro da liberdade de escolha a pessoa pode não somente descobrir o verdadeiro e essencial sentido das suas opções como também da capacidade inerente à sua verdade. A grandeza deste item na exortação Amoris Laetitia permeia os elementos fundamentais de um processo que contribua a desenvolver uma pastoral de discernimento.
“A liberdade de escolher permite projetar a própria vida e cultivar o melhor de si mesmo, mas, se não tiver objetivos nobres e disciplina pessoal, degenera numa incapacidade de se dar generosamente. De fato, em muitos países onde diminui o número de matrimônios, cresce o número de pessoas que decidem viver sozinhas ou que convivem sem coabitar”. (AL 33).
A grandeza do amor e das virtudes no matrimônio cristão
Para a vida cristã esta descoberta ajuda a entrever aquilo que poderíamos chamar da prática das virtudes que brotam do ser mesmo da pessoa.
Amabilidade, generosidade, desprendimento, perdão são dons gratuitos que brotam posteriormente na experiência mais genuína de quem opta pela vida conjugal. Acredito que aqui se encontra o sentido da vida matrimonial desde um âmbito teológico e antropológico ou como diz o mesmo documento é desde aqui que podemos enxergar a grandeza do amor de Deus por cada pessoa humana.
A vida conjugal, lugar de se perceber amado e de modo especial esperado
“O matrimónio é um sinal precioso, porque, «quando um homem e uma mulher celebram o sacramento do matrimónio, Deus, por assim dizer, “espelha-Se” neles, imprime neles as suas características e o carácter indelével do seu amor. O matrimónio é o ícone do amor de Deus por nós. Com efeito, também Deus é comunhão: as três Pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – vivem desde sempre e para sempre em unidade perfeita. É precisamente nisto que consiste o mistério do matrimónio: dos dois esposos, Deus faz uma só existência»”. (AL 121).
Neste sentido, o Papa Francisco sempre insistiu ao longo do seu pontificado em traduzir o fato de que a vida conjugal não é um pacto ou uma convenção bilateral entre duas pessoas. Quando duas pessoas se encontram significa que cada uma delas está ciente da grandeza do “outro” onde pode se perceber como totalmente amado e de modo especial esperado.
Amoris Laetitia, casar-se por amor e para o amor
A beleza do matrimônio está justamente aqui. O reflexo da caridade que brota do mais belo exercício de reconhecimento que gera maior alegria quando cada um exerce o perdão como expressão grandiosa deste ato sublime de ser um para o outro.
“É verdade que o amor é muito mais do que um consentimento externo ou uma forma de contrato matrimonial, mas é igualmente certo que a decisão de dar ao matrimónio uma configuração visível na sociedade com certos compromissos manifesta a sua relevância: mostra a seriedade da identificação com o outro, indica uma superação do individualismo de adolescente e expressa a firme opção de se pertencerem um ao outro. Casar-se é uma maneira de exprimir que realmente se abandonou o ninho materno, para tecer outros laços fortes e assumir uma nova responsabilidade perante outra pessoa”. ( AL, 131 – 133).
Um amor que manifestado e vivido
A beleza do casamento está então no casar-se por amor e para o amor. Um amor que manifestado e vivido, ajuda no crescimento e de modo especial no amadurecimento de cada um dos cônjuges. Na exortação podemos constatá-lo em alguns dos numerais que sublinham a importância deste processo vivido e sustentado a dois querendo ser um.
A análise que realizamos destes textos nos leva a concluir que a pessoa humana vivência desde antes do momento de pensar em si mesma a proposta de ir ao encontro de um outro que lhe faz pleno e realiza seu ser mais íntimo na esperança de responder a sua vocação. Isto vale para pessoas que optam pela vida de casal ou pela vida celibatária.
O que as leis não podem ensinar sobre o amor e a família
Aqui está a grandeza antropológica desta visão que trouxe para nós o desenvolver da Amoris Laetitia em relação ao mundo das emoções, das paixões e da maturidade afetiva. Só quem descobre o valor de uma vida dada e doada pode descobrir o singular e transcendental fato de amar e ser amado através do coração e não de posturas dogmáticas ou meramente abstratas. Cria-se relações éticas e evita todo tipo de manipulação.
O amor não só dignifica a pessoa como também a conduz dentro de um caminho cada vez mais claro em direção ao seu horizonte social e cultural.
Espero que cada pessoa possa entender que a antropologia do matrimônio e da família não dependem das condições que o estado ou as leis civis possam emitir e sim da especial e renovadora vida que cada pessoa descobre na sua família. Uma vida vivida para os outros e com os outros.
Rafael Solano. Presbítero da Arquidiocese de Londrina – PR. PhD em Teologia Moral. Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Coordenador do Curso de Teologia da PUCPR Campus Londrina – PR.
Fonte: formacao.cancaonova.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário