Setembro é o mês dedicado à prevenção do suicídio. A campanha, que teve início no Brasil em 2015, é uma forma de ajudar a salvar a vida de milhares de pessoas. Confira a explicação da psicóloga Adriana Potexki sobre a bipolaridade, pois essa doença pode levar 50% das pessoas diagnosticadas a cometerem suicídio.
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A bipolaridade é um dos transtornos psiquiátricos com maior risco associado ao suicídio. Enquanto na depressão unipolar grave o índice de tentativas de suicídio é de cerca de 20%, na bipolaridade essa taxa sobe para 40% a 50%. No Brasil, estima-se que cerca de 4,2 milhões de pessoas convivam com essa condição, afetando um número expressivo de jovens.
Para abordar esse tema com a devida gravidade, é essencial superar preconceitos e memes populares que banalizam o transtorno — como rotular uma mulher irritada ou um adolescente nervoso como “bipolares”. Muitas vezes, esses comportamentos decorrem de problemas matrimoniais graves ou das complexidades naturais da idade, exigindo atenção e amor em vez de rotulações superficiais.
A natureza do transtorno e os sintomas mais comuns
A bipolaridade não é um modismo e nem algo que se “pega” ao longo da vida; ela possui um caráter fortemente hereditário, sendo transmitida ao longo de gerações em famílias de forma silenciosa e cruel. É muito comum que mães ou avós tenham passado a vida inteira sem o diagnóstico correto, sendo tratadas apenas como portadoras de uma depressão crônica.
A oscilação de humor característica do transtorno vai muito além do estresse diário ou da irritação passageira. Trata-se de uma alternância drástica entre estados extremos:
A fase de mania e o declínio depressivoFase de mania: O cérebro entra em um estado de hiperativação tão intenso que a pessoa pode passar de duas a cinco noites consecutivas sem dormir. Nesse período, surge uma necessidade compulsiva de falar, levando a pessoa a ligar para conhecidos e conversar por horas seguidas devido à aceleração do pensamento.
Fase depressiva: De maneira repentina, quem estava em extrema agitação pode amanhecer prostrado na cama no dia seguinte, sem forças para se levantar ou mesmo para realizar a higiene pessoal, como tomar banho.
Compulsões e hipersexualidade
Além das oscilações intensas de energia, a bipolaridade frequentemente se manifesta por meio de comportamentos compulsivos graves:Compulsão por compras: a perda de controle financeiro no pico da fase de mania pode levar a pessoa a estourar cartões de crédito e perder todos os seus bens.
Uso de substâncias e jogos: compulsões por jogos, pornografia, drogas e alcoolismo são frequentes. Em muitos casos, o alcoolismo funciona como uma tentativa involuntária de camuflar o transtorno bipolar subjacente.
Hipersexualidade: Um sintoma bastante comum, porém pouco debatido, é a hipersexualidade. A desregulação do cérebro pode levar a um comportamento de promiscuidade, exagero sexual ou até mesmo à prostituição.
Os desafios para um diagnóstico preciso
Nem todas as pessoas bipolares apresentam o quadro clássico de mania. A prática clínica demonstra que quadros de depressão severa podem esconder uma bipolaridade de difícil identificação.
Em um caso acompanhado há cerca de 15 anos por uma psicóloga com quase 30 anos de atuação, uma religiosa diagnosticada com depressão grave tratou seus traumas profundos em terapia. Embora seus pensamentos negativos tenham sido superados e ela tenha chegado a declarar a frase “sou digna de bênçãos e graças”, seu corpo continuava sem responder aos estímulos da vida prática.
O impacto dos estabilizadores de humor
Diante da falta de resposta física aos antidepressivos tradicionais, a paciente foi encaminhada a uma nova avaliação com o psiquiatra Dr. Alexandre Carona. A conduta médica adotada foi a retirada completa dos antidepressivos e a introdução de um estabilizador de humor. Em apenas uma semana (sete dias), o corpo da paciente respondeu e ela recuperou a vitalidade.
Embora a paciente não apresentasse o histórico típico de mania, a psiquiatria tem demonstrado que certos quadros classificados como depressão respondem diretamente aos estabilizadores de humor.
A investigação minuciosa do histórico familiar funciona como um trabalho investigativo. Relatos de familiares com comportamentos atípicos (como “dias em que a pessoa ficou esquisita”) ou com histórico de tentativas de suicídio são pistas fundamentais para identificar surtos bipolares que nunca foram diagnosticados no passado.
Próximos passos
Compreender a bipolaridade e identificar seus sintomas reais é o primeiro passo para buscar ajuda qualificada e proporcionar o tratamento adequado a amigos, familiares ou a si mesmo. O uso correto de medicações e o acompanhamento profissional trazem luz e recuperação para a qualidade de vida.
Autora: Adriana Katia Potexki
Fonte: formacao.cancaonova.com
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