Contra a ditadura do “eu sozinho”, a Igreja propõe a revolução do corpo: quando um membro sofre, o organismo inteiro, o Corpo Místico, entra em alerta
São Paulo afirma em suas cartas que somos o Corpo Místico de Cristo. Na Festa da Misericórdia, as leituras bíblicas nos apontam esse caminho: a comunidade é o lugar da vida e do encontro com o Senhor ressuscitado. Ninguém é bom sozinho. Precisamos uns dos outros para nos firmarmos na santidade em Deus.

De fato, a Igreja é o Corpo Místico de Cristo. E um corpo não é um mero ‘amontoado de peças’, mas uma unidade integrada. Se você martela o dedão do pé, a boca grita e os olhos choram. O cérebro não ignora o pé só porque ele está longe da cabeça. Ora, o mesmo se passa com a fé: não é uma experiência psicológica individual; é um sistema nervoso espiritual. Como disse Papa Bento XVI em sua Encíclica Spe Salvi (Salvos na esperança) a propósito do tema da salvação: “Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho” (Spe Salvi, 48). Assim, se um cristão é perseguido na Nigéria ou uma família passa fome na sua paróquia, o seu “eu” espiritual deveria sentir com eles. Se não sente, é porque o nervo pode estar atrofiado.
O antídoto para a solidão moderna
Em um mundo como o nosso, onde tudo e todos estão sempre ‘conectados’, só Jesus e o Seu Corpo Místico – a comunidade dos crentes – pode nos salvar do isolamento e do individualismo. O mundo promete a liberdade, mas aprisiona o ser humano ainda mais no isolamento.
Como curar essa doença? O que fazer para sarar essa depressão coletiva? A resposta está no “Corpo Místico de Cristo”: a Igreja.
Ser católico é aceitar que “eu” só existo plenamente no “nós”. Não somos sócios de um clube; somos células de um organismo vivo. Necessitamos todos uns dos outros.
O “estado inflamatório” da graça
A santidade e o pecado não são privados. Tudo o que fazemos atinge a Cristo e os irmãos. O Senhor é Quem mesmo diz: “Tudo o que fizestes a um desses pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt 25). Por isso, se um membro adoece ou sofre, todos sofrem com ele, pois é impossível o corpo não sentir.
Quando um irmão ou uma irmã sofre, a Igreja entra em “estado inflamatório”: o coração dói com o mal do outro. O “eu” não fica indiferente.
A indiferença não é apenas uma falha moral; é uma doença neurológica na fé. Quem diz: “isso não é problema meu” está sofrendo de uma paralisia espiritual que o desliga do Corpo de Cristo. São Paulo nos adverte: não pode haver divisão no corpo, mas todos devem ter a mesma solicitude uns para com os outros. (1Cor 12,25).
São Francisco de Assis e a “fusão de nervos”
Se a Igreja é um só corpo, ninguém pode pensar que suas ações não alcançam os outros, ou que a sua fé é apenas um ato isolado. Alguns dizem “eu tenho a minha fé”. É propício recordar de São Francisco de Assis, pois ao celebrarmos um ano jubilar franciscano por ocasião dos 800 anos de sua morte, ele nos ensina que todos somos irmãos! Francisco é mestre da interconectividade! Não ajudou apenas os pobres, mas se tornou pobre. Ao abraçar o leproso, ele sentiu a dor na própria pele, porque entendeu que o leproso era seu próprio braço ferido. Chamou de irmão ao próprio Sol e de irmã a Lua, bem como irmãos e irmãs as estrelas, o fogo, o vento… e até o irmão Lobo (símbolo daqueles ‘membros’ que desprezamos por conta de suas más opções e más ações).
De fato, São Francisco de Assis é o exemplo de que só a fraternidade (povo de Deus, um só Corpo) em Cristo faz desaparecer a fronteira entre o “eu” e o “outro” através da caridade.
Despertar os nervos:
A próxima vez que você ouvir sobre uma tragédia ou uma injustiça, não pergunte ‘por que Deus permite isso?’, mas eu o convido a perguntar ao seu coração: ‘Por que os meus nervos ainda não dispararam?’ Pois isso foi o que aconteceu com os mártires: eles deram a vida, assumiram a vida do irmão como sendo sua própria, parte do seu próprio corpo.
Temos outro exemplo: São Maximiliano Kolbe (franciscano conventual) que, no campo de concentração de Auschwitz, trocou sua vida pela de Franciszek Gajowniczek, um sargento do exército polonês e pai de família. Ao voltar para sua casa, ele dedicou o restante de sua vida a divulgar o ato heroico de Kolbe e agradeceu pessoalmente o “dom da vida”, testemunhando a canonização de São Maximiliano por São João Paulo II em 1982.
São Maximiliano Kolbe é reverenciado como mártir da caridade, um santo que escolheu o amor em meio ao ódio extremo. Assumamos, então, esse compromisso para com Deus e o Seu Corpo, a Igreja: acolhamos a dor e o sofrimento do outro e rezemos por aqueles membros ‘mais frágeis’, porque amar o outro e rezar por ele não é um favor que você faz; é a manutenção da sua própria saúde espiritual, para que os nervos despertem!
Frei Sérgio Pinheiro, ofm
Promotor vocacional da Província Portuguesa da OFM
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